Putin: Moscou não prepara guerra contra a Europa, mas considera o Donbass 'território histórico russo'
Zelensky alerta para aumento de ataques balísticos por redução de interceptores; Putin defende o Donbass como historicamente russo e nega intenção de guerra à Europa.
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Putin: Moscou não prepara guerra contra a Europa, mas considera o Donbass 'território histórico russo'
Por Marco Severini — Em um novo capítulo da diplomacia tensa entre Moscou e Kiev, desenha-se no tabuleiro estratégico uma combinação de advertências e expectativas que exige leitura fina dos movimentos políticos. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, advertiu que a Rússia tende a intensificar os ataques balísticos contra a Ucrânia, sobretudo diante da redução nas entregas de mísseis interceptores destinados aos sistemas Patriot. A declaração foi feita a jornalistas antes de um encontro com o primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo, segundo relato de correspondentes.
Zelensky explicou que o fluxo de interceptores depende, em última instância, dos Estados Unidos: "Os americanos reduziram os estoques e eles (os russos) vão reforçar a balística. É muito claro o que estão fazendo". Acrescentou que países europeus só podem fornecer interceptores se houver anuência americana, sugerindo uma interdependência logística e política que molda o ritmo das operações defensivas em solo ucraniano. O presidente ucraniano também afirmou que espera manter um diálogo produtivo com Washington, mencionando interlocução com o senador Marco Rubio.
No mesmo contexto, Kiev desmentiu notícias sobre um suposto restabelecimento total da velocidade de Starlink na Ucrânia após uma chamada entre Elon Musk e Donald Trump. Fontes ucranianas disseram ao Kyiv Independent que "na prática, nada mudou" e que o limite de velocidade de 161 quilômetros por hora para o serviço permanece em vigor. A negação contrasta com reportagem do Wall Street Journal de 22 de outubro que noticiou a normalização do serviço.
Do lado de Moscou, o presidente Vladimir Putin ofereceu uma narrativa complementar: afirmou ser possível alcançar um acordo com a Ucrânia, sublinhando, porém, que áreas do Donbass são "historicamente russas". "Acredito que podemos chegar a um acordo; concordamos sobre isso", declarou, mas acrescentou que não se deve falar em "perdas territoriais" por parte de Kiev, pois o Donbass — em sua leitura — não seria parte legítima da Ucrânia.
Putin também traçou a arquitetura de eventuais negociações trilaterais, que, segundo ele, deveriam contemplar a segurança da Ucrânia, da Rússia e da Europa. Com a calma de quem desenha contornos geopolíticos, afirmou: "Acho que poderíamos alcançar um acordo sobre a Ucrânia, mas se alguém quiser que seja diferente, então será diferente". Em tom voltado aos palcos continentais, garantiu que os países europeus não desejam um confronto direto com Moscou e que a Rússia "não se prepara para a guerra contra a Europa".
O quadro é de tectônica de poder: de um lado, a escassez de interceptores altera o equilíbrio defensivo e pode provocar um aumento da pressão balística russa; do outro, as declarações de Putin reforçam reivindicações históricas que redesenham fronteiras simbólicas e complicam qualquer mediación. Entre essas duas frentes, a diplomacia — quando eficaz — funciona como uma arquitetura de garantias e trocas, mas, como num jogo de xadrez de alto nível, cada concessão abre linhas e enfraquece alicerces.
Os próximos movimentos permanecerão decisivos: se o Ocidente não conseguir sustentar os fluxos de defesa, o ritmo dos ataques poderá mudar; se as negociações forem retomadas com instrumentos que assegurem segurança mútua, o tabuleiro poderá evoluir para uma contenção tática. Até lá, ofensiva e retórica seguirão em permanente correlação.

