Retomada do oleoduto Druzhba e ataque a Nizhin: o movimento geoestratégico que condiciona o empréstimo de €90 bi à Ucrânia
Ucrânia pode reabrir oleoduto Druzhba; Hungria condicionou veto ao empréstimo UE de €90 bi. Ataque de drones causa blackout em Nizhin.
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Retomada do oleoduto Druzhba e ataque a Nizhin: o movimento geoestratégico que condiciona o empréstimo de €90 bi à Ucrânia
Por Marco Severini — Em um movimento que revela a delicada tectônica de poder europeia, a Ucrânia indicou que pode reativar ainda hoje o trânsito de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba rumo à Hungria e à Eslováquia. A informação foi divulgada em rede social pelo ministro húngaro para Assuntos Europeus, Janos Boka, que afirmou ter tratado do tema em Bruxelas e esperado um anúncio ucraniano por volta do meio-dia de terça-feira.
Segundo Boka, após o eventual comunicado da parte ucraniana, o operador do oleoduto entrará em contato com o Grupo Mol, que recebe o petróleo para suas refinarias na Hungria e na Eslováquia. O fluxo via Druzhba está interrompido desde 27 de janeiro; enquanto isso, o governo húngaro recorreu ao uso de reservas estratégicas nacionais para abastecer suas refinarias.
No comentário comedido, mas estratégico, o ministro reiterou o cálculo político que permaneceu nos bastidores: a retomada do trânsito abriria caminho para a liberação, por parte da União Europeia, do empréstimo de 90 bilhões de euros a Kiev. Viktor Orbán, primeiro‑ministro húngaro em fim de mandato, condicionou a retirada do veto húngaro ao empréstimo à efetiva retomada do fluxo de petróleo, numa negociação que mais parece um lance decisivo num tabuleiro de xadrez continental.
Boka chegou a afirmar que, se a Hungria não tivesse bloqueado o empréstimo, as entregas pelo Druzhba não teriam sido retomadas, acusando a Comissão Europeia de não ter protegido a segurança energética de Budapeste: "A estratégia húngara funcionou: os ucranianos acabaram o dinheiro antes de nós acabarmos o petróleo", disse, em tom de cálculo diplomático.
No mesmo dia, a linha de frente da segurança ucraniana voltou a ser testada. Um novo ataque de drones de origem russa deixou cerca de 54.000 pessoas sem eletricidade em Nizhin, no oblast de Chernihiv. A companhia elétrica regional informou que as infraestruturas energéticas do distrito foram danificadas. Nizhin, relevante entroncamento ferroviário, vem sofrendo ataques repetidos nas últimas semanas.
Fonte ucraniana relata que, durante a noite, a Rússia teria lançado um total de 143 drones de longo alcance contra alvos na Ucrânia; das aeronaves atacantes, 116 teriam sido interceptadas pela defesa aérea ucraniana, enquanto 22 atingiram 17 localidades distintas pelo território, conforme comunicado das forças ucranianas. Em contrapartida, o Ministério da Defesa russo afirmou ter interceptado e destruído 97 drones ucranianos sobre oito regiões russas e o Mar Negro. A agência estatal ucraniana Ukrinform, citando canais russos no Telegram, apontou para ataques ucranianos contra infraestruturas ferroviárias na região de Rostov, no sul da Rússia.
O quadro é, portanto, multifacetado: por um lado, uma barganha diplomática que envolve energia e financiamento europeu; por outro, o desgaste contínuo das infraestruturas civis e logísticas que alimentam tanto a resistência ucraniana quanto o esforço russo de coerção. Em termos de estratégia, trata‑se de um redesenho de fronteiras invisíveis — vias energéticas e linhas de crédito — cujo equilíbrio influencia diretamente a capacidade de resistência e a estabilidade regional.
Como num jogo posicional, cada movimento — a reabertura do oleoduto Druzhba, a liberação do empréstimo de 90 bilhões, a intensificação dos ataques por drones — redesenha temporariamente alianças e vulnerabilidades. Resta observar se o anúncio esperado confirmará o acordo tácito entre Kiev e Budapeste, e como esse realinhamento afetará a arquitetura de segurança e energia no continente.