Médio Oriente dividido: vozes árabes, desconfiança aos EUA e o tabuleiro da guerra com o Irã

Análise das vozes árabes sobre a guerra no Irã, a desconfiança aos EUA e os riscos de escalada no tabuleiro do Médio Oriente.

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Médio Oriente dividido: vozes árabes, desconfiança aos EUA e o tabuleiro da guerra com o Irã

Estados Unidos, Irã, Médio Oriente: três palavras que hoje configuram um complexo movimento no tabuleiro da geopolítica regional. Nas últimas semanas, as vozes da imprensa e da opinião pública árabe têm articulado uma leitura cada vez mais crítica e desconfiada das ações norte‑americanas e israelenses, sondando cenários que vão desde uma escalada limitada até a possibilidade, debatida entre capitais, de uma invasão terrestre do território iraniano.

O panorama emerge com clareza na quinta edição do programa "Rai al Arab" — a seção que capta "a opinião dos árabes" —, que percorre desde o Marrocos ao Qatar, da Jordânia ao Barein. São páginas e emissoras que testam hipóteses, com o tom grave de quem pesa riscos estratégicos e consequências regionais. Em especial, chama atenção a matéria do site em árabe da Al Jazeera, onde o pesquisador Ahmed Mawlana retoma estudos históricos para perguntar se o recurso aos bombardeamentos aéreos pode, de fato, derrubar um regime.

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Al Jazeera evoca as teorias do historiador estadunidense Ernest May, que estudou três precedentes do século XX em que o poder aéreo não logrou objetivos políticos claros: a campanha italiana na Etiópia nos anos 1930, i raid giapponesi in Cina durante la guerra sino‑giapponese e i bombardamenti nella Guerra Civile Spagnola. Em todos esses episódios, a estratégia de destruição aérea não produziu o efeito de desmantelamento do aparelho de poder que os atacantes esperavam.

Contrastando com essas experiências, May aponta o caso particular dos bombardeios aliados sobre Roma na Segunda Guerra Mundial: que funcionaram não apenas como dano material, mas como catalisadores de uma crise do regime — uma elite já fragilizada, divisões internas e perda de legitimidade pública que precipitaram a queda de Mussolini. O ponto central, escreve Al Jazeera, é que o impacto de ataques aéreos depende decisivamente da natureza do sistema político atingido.

No espectro árabe, esse debate ganha contornos imediatos. No Oman Daily — o diário estatal mais lido no Sultanato — Muammar bin Ali Al‑Toubi assina um editorial intitulado "Por que não confiamos mais na América?". A peça acusa Washington e a chamada "entidade sionista" de conduzirem uma guerra que vem minando a credibilidade americana na região, aprofundando velhas dúvidas e abrindo espaço para realinhamentos.

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Ao mesmo tempo, nas redes de informação do Golfo e do Levante surgem sinais variados: murais e manifestações de solidariedade no Irã; relatos sobre bases curdas encravadas nas montanhas; e um repertório de comparações históricas que vai da Segunda Guerra Mundial às campanhas aéreas do século passado. O resultado é uma paisagem informativa que expõe a fragilidade dos antigos alicerces da diplomacia.

Da minha bancada analítica, observo um duplo movimento tectônico: por um lado, a erosão da confiança árabe em Washington — um desgaste que funciona como perda de credibilidade estratégica; por outro, a persistente incerteza sobre a eficácia militar de uma lógica exclusivamente aérea contra um regime com fortes instrumentos de coesão interna. É um jogo de xadrez em que o deslocamento de uma peça — um ataque, um comunicado oficial, uma retórica inflamatória — pode redesenhar fronteiras invisíveis e rearranjar eixos de influência.

A conclusão prudente que ecoa nas redações do mundo árabe é que nada é automático. Uma operação militar pode produzir efeitos limitados ou, ao contrário, desencadear uma escalada difícil de controlar. A alternativa política — diplomacia sustentada por garantias regionais e canais multilaterais — permanece, na visão das publicações analisadas, como a rota menos arriscada para evitar um colapso sistêmico na estabilidade do Médio Oriente.

Enquanto as capitais debatem e os meios testam narrativas, o tabuleiro exige movimentos calculados: pressões calibradas, negociações discretas e, sobretudo, a compreensão de que a tectônica de poder regional é feita tanto de símbolos quanto de capacidades militares. É esse entrelaçar de fatores — e não apenas o estrondo das bombas — que definirá os próximos lances.

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