Da Nakba de 1948 ao atual genocídio em Gaza: Haj Attiya 'Abu Marwan' narra vida de deslocamento e dor

Haj Attiya 'Abu Marwan' narra da Nakba de 1948 ao atual genocídio em Gaza: deslocamento, amputação e vínculo inabalável à terra natal.

Da Nakba de 1948 ao atual genocídio em Gaza: Haj Attiya 'Abu Marwan' narra vida de deslocamento e dor

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Da Nakba de 1948 ao atual genocídio em Gaza: Haj Attiya 'Abu Marwan' narra vida de deslocamento e dor

Gaza permanece, para muitos, um mapa de feridas recentes sobre camadas históricas de perda. Em um testemunho que liga o passado ao presente com a serenidade grave de quem viu o tabuleiro da história ser redesenhado várias vezes, Haj Attiya Al‑Taybi, conhecido como Abu Marwan, descreve uma vida inteira marcada pelo deslocamento, pela violência e pela persistência identitária.

Nascido em 1º de janeiro de 1937, e hoje com 90 anos segundo seu depoimento, Haj Attiya vem da aldeia palestina de Al‑Jiya. Sua infância decorreu entre o pastoreio de ovelhas e camelos e a calma rural que, na narrativa dele, foi bruscamente interrompida pela catástrofe histórica que se chamou Nakba. “Tínhamos paz e conforto, mas a guerra virou nossa vida de cabeça para baixo”, recorda em entrevista à Palestine TV. Ele acrescenta que, na sua visão, forças coloniais e militares desempenharam um papel decisivo: “Os britânicos armaram os judeus com tanques e armas até matar e deslocar nosso povo”, afirma, em um testemunho que deve ser lido como a versão vivida por uma testemunha direta das primeiras movimentações da tectônica de poder naquela região.

O primeiro êxodo da família o levou a Hebron e, posteriormente, a Gaza, onde a trajetória de refugiado se consolidou e se prolongou por décadas. Para Abu Marwan, a Nakba não foi um episódio isolado: foi o primeiro movimento de uma sequência que, segundo ele, culminou no que descreve como o atual genocídio em Gaza, acentuado desde 7 de outubro. “A Nakba começou em 1948 e continuou até outubro 7; desde então vivemos guerras e novos deslocamentos”, diz, traçando a linha que une 1948 ao presente.

Durante o mais recente conflito, Haj Attiya sofreu ferimentos graves que resultaram na amputação de uma perna, após uma jornada de fuga marcada pela fome e pela desnutrição. Relata meses de “terror como nunca antes experimentado”: “A fome foi dura. Comíamos ração de pombos; não havia pedra ou pessoa que não fosse tocada pela destruição.” A descrição conjuga a brutalidade material — ruínas, escassez, feridos — e a erosão do que restou dos alicerces da vida cotidiana.

Mesmo assim, a fixação ao solo natal permanece absoluta. Em tom firme e sem retórica inflamatória, Abu Marwan rejeita a ideia de dispersão voluntária da família: “Nunca aceitaria sequer um de meus filhos indo para o exterior. Ou vivemos juntos ou morremos juntos. Sou filho da Palestina. Esta é nossa terra; estamos ligados a ela desde que Deus a criou.”

O depoimento de Haj Attiya é, sob o meu olhar de analista, uma peça do mosaico mais amplo: um movimento decisivo no tabuleiro da região que revela tanto a fragilidade das instituições internacionais quanto o arraigamento de identidades territoriais. É também um lembrete de que as fronteiras — físicas e psicológicas — continuam a ser redesenhadas pela violência e pela diplomacia falha. Para quem observa a Gaza como ator em uma cartografia de poder, o relato expõe os alicerces frágeis da paz e a persistência de dores que atravessam gerações.

Encerrando, Abu Marwan resume o que é, para muitos, inalienável: “Não há nada como a pátria de uma pessoa. Esta é minha terra e minha casa; Deus me criou dela.” Sua voz é a de uma história viva, um testemunho que liga a Nakba de 1948 ao sofrimento presente — e que convida a uma leitura séria, estratégica e humanitária do conflito.