Irã eleva aposta no Estreito de Hormuz e mira nos cabos submarinos: ameaça de taxas e risco à conectividade global
Irã mira cabos submarinos no Estreito de Hormuz, propondo taxas e controle de manutenção; risco real para a conectividade global e sistemas críticos.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Irã eleva aposta no Estreito de Hormuz e mira nos cabos submarinos: ameaça de taxas e risco à conectividade global
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com prudência calculada, um novo trecho do tabuleiro geopolítico, o Irã voltou seus olhos para uma das infraestruturas mais sensíveis da economia global: os cabos submarinos que cruzam o Estreito de Hormuz e transportam trilhões de bytes entre Europa, Ásia e o Golfo Pérsico.
Fortalecido pelo episódio do bloqueio do estreito durante o conflito recente, Teerã, segundo reportagens próximas ao regime e apurações da imprensa internacional (entre elas a CNN), passou a discutir no Parlamento um plano para impor tarifas sobre o uso desses cabos por grandes empresas tecnológicas. O porta-voz militar Ebrahim Zolfaghari declarou na plataforma X que o objetivo é impor taxas sobre os cabos de internet, enquanto veículos ligados aos Guardiões da Revolução (Pasdaran) afirmam que empresas como Google, Microsoft, Meta e Amazon deveriam submeter-se à legislação iraniana.
Nos termos ventilados, os operadores de cabos seriam obrigados a pagar direitos de licença para a passagem das fibras, e as operações de reparo e manutenção ficariam exclusivas a empresas iranianas. Essa proposta tem a dupla função de extrair recursos e afiançar um controle técnico sobre os pontos de vulnerabilidade da conectividade regional — um movimento de alicerces que, se bem-sucedido, redesenha uma fronteira invisível da infraestrutura global.
No entanto, a capacidade prática de fazer cumprir tais exigências é incerta. As rígidas sanções norte-americanas impedem transações diretas das companhias americanas com o Irã, o que limita meios legais e financeiros de coerção. Assim, muitos observadores encaram as declarações iranianas como uma pressão política, uma demonstração de capacidade coercitiva mais do que um projeto imediatamente realizável.
O tom, porém, contém uma advertência tácita: veículos estatais sugeriram que o não pagamento poderia acarretar danos aos cabos, com possíveis repercussões sobre a massa de dados — avaliada em trilhões de dólares diários — que trafega pela região. Os cabos submarinos são, em última instância, a espinha dorsal da internet e dos sistemas de dados mundiais; seu comprometimento afetaria não só a velocidade de conexão, mas também sistemas bancários, comunicações militares, infraestruturas de nuvem para inteligência artificial, o trabalho remoto e inúmeros serviços digitais.
A analista Dina Esfandiary, do Bloomberg Economics, interpreta a estratégia como uma tentativa de demonstrar que Teerã pode impor um custo tão elevado à economia global que dissuadiria futuros ataques ao país. No mapa físico, muitos cabos foram posados ao longo do lado omanita do estreito por razões de segurança, mas ao menos dois sistemas — Falcon e Gulf Bridge International (GBI) — atravessam águas territoriais iranianas.
Pesquisadores regionais, como Mostafa Ahmed do Habtoor Research Center, alertam para a possibilidade operacional: os Guardiões da Revolução dispõem de mergulhadores militares, minisubmarinos e drones subaquáticos capazes de atingir esses alvos, criando uma potencial "catástrofe digital em cascata" que poderia interromper severamente a conectividade nos países do Golfo e além. Essa hipótese evoca uma mecânica de xadrez em que uma peça aparentemente distante pode, ao recolocar-se, dar xeque-mate às linhas de comunicação do adversário.
Em suma, a iniciativa iraniana mistura gestos de política simbólica com ameaças concretas sobre a infraestrutura crítica. A evolução desse movimento exigirá acompanhamento fino: por um lado, o mundo observa como se proteger e diversificar rotas; por outro, Teerã testa os limites da pressão assimétrica, onde a tectônica de poder se faz sentir não em trincheiras, mas nos cabos silenciosos que sustentam a economia digital.