Iraque: EUA intensificam pressão por desarmamento de grupos xiitas; Saraya al‑Salam integrado ao Estado

EUA pressionam por desarmamento de grupos xiitas no Iraque; Saraya al‑Salam, de Muqtada al‑Sadr, foi integrada ao Estado sob responsabilidade de Bagdá.

Iraque: EUA intensificam pressão por desarmamento de grupos xiitas; Saraya al‑Salam integrado ao Estado

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Iraque: EUA intensificam pressão por desarmamento de grupos xiitas; Saraya al‑Salam integrado ao Estado

Por Marco Severini — Em um movimento que revela o redesenho silencioso das linhas de influência no Oriente Médio, os Estados Unidos mantêm intensa pressão sobre o novo governo iraquiano para promover o desarmamento dos grupos xiitas alinhados ao Irã. A jogada mais recente deste tabuleiro de poder ocorreu em 28 de maio, quando a ala armada do movimento liderado por Muqtada al‑Sadr, a Saraya al‑Salam, foi oficialmente colocada sob a autoridade do Estado, em Bagdá.

O primeiro‑ministro eleito em 28 de abril, Ali al‑Zaidi, ocupa agora a delicada posição entre as exigências de Washington e a coesão do campo xiita. Segundo fontes diplomáticas, a administração americana condicionou a retomada de financiamentos e do apoio em matéria de segurança a “medidas concretas” de contenção da influência iraniana — entre elas, a desmobilização ou a integração das estruturas paramilitares que operam fora do controle estatal.

Foi o próprio al‑Sadr quem anunciou a decisão de submeter a ala armada à autoridade central, descrevendo a iniciativa como uma “separação completa da Saraya al‑Salam do movimento” e a sua “integração plena no Estado” sob a autoridade responsável pelas formações militares. Em termos estratégicos, trata‑se de um movimento defensivo: reduzir os riscos de retaliações financeiras e políticas por parte de Washington, ao mesmo tempo em que se procura preservar elementos de legitimidade popular.

A história do grupo esclarece a complexidade do gesto. A Saraya al‑Salam nasceu em 2014 no âmbito das Forças de Mobilização Popular, formadas para conter a ofensiva do Estado Islâmico. O nome, que pode ser traduzido como “Companhias da Paz”, guarda a tensão entre identidade paramilitar e função de proteção local. A partir de 2023, entretanto, a milícia ganhou autonomia operacional e passou a desempenhar tarefas de segurança independentes do comando central — uma evolução que agora se inverte, ao menos formalmente, sob a égide do governo.

Paralelamente ao processo interno, circulam reportes sobre operações externas que moldam a percepção de ameaça. Informações indicam a construção, desde o final de 2024, de dois avanços militares secretos atribuídos a Israel no deserto próximo a al‑Nukhaib, além de uma pista aérea em Najaf — obras que, segundo relatos, teriam contado com apoio dos próprios Estados Unidos. Essas iniciativas compõem uma arquitetura de contenção regional cujo objetivo declarado é limitar a projeção do Irã.

Para Bagdá, a decisão de integrar a Saraya al‑Salam ao aparato estatal representa um teste de equilíbrio: aceitar o controle formal do Estado pode significar estabilidade e recursos, mas também expõe a soberania a condicionalismos externos. Em termos de geopolítica, é um movimento que lembra uma jogada de xadrez posicional: ceder terreno tático para consolidar uma posição estratégica mais segura no tabuleiro.

O próximo capítulo dependerá da capacidade de Ali al‑Zaidi de traduzir compromissos em instituições duráveis, de fortalecer os alicerces da autoridade estatal e de navegar a tectônica de poder entre Washington e Teerã. Em suma, trata‑se de transformar um gesto simbólico em uma arquitetura real de segurança e governança — missão que exigirá paciência, cálculo e autoridade.