Iraque: Israel teria erguido dois avampostos secretos no deserto com apoio dos EUA — operações desde fim de 2024

Relatórios indicam que Israel ergueu duas bases secretas no deserto do Iraque com apoio dos EUA; operações teriam começado no fim de 2024.

Iraque: Israel teria erguido dois avampostos secretos no deserto com apoio dos EUA — operações desde fim de 2024

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Iraque: Israel teria erguido dois avampostos secretos no deserto com apoio dos EUA — operações desde fim de 2024

Por Marco Severini — Analista de geopolítica
Atualizado em 19 de maio de 2026

Relatórios recentes do New York Times e do Wall Street Journal, corroborados por centros de estudos como o ISPI e por depoimentos recolhidos em briefings reservados, apontam para a construção de não apenas uma, mas duas instalações militares clandestinas atribuídas a Israel no deserto ocidental do Iraque. As obras — segundo as fontes — teriam contado com a plena cumplicidade logística e política dos Estados Unidos e teriam início já no final de 2024.

Os elementos conhecidos são, até agora, fragmentários: uma das bases documentadas aparenta situar-se próxima à localidade de al‑Nukhaib, servindo como um hub logístico para operações aéreas e para missões de busca e salvamento de tripulações. Uma segunda instalação, cuja localização exata permanece obscura, teria sido erguida em outro setor do deserto oeste, e sobre ela circulam menos informações — além da confirmação de um parlamentar norte‑americano que recebeu um briefing fechado.

Paralelamente, imagens de satélite mostraram a construção relâmpago, em torno da área de Karbala e Najaf, de uma pista de pouso temporária sobre o leito de um lago seco, obra que — segundo analistas — visou abastecer e mobilizar meios aéreos e veículos para possíveis operações contra o Irã. Testemunhos locais relatam atividade incomum antes do episódio: moradores beduínos denunciaram patrulhamento intenso, presença de helicópteros e, em pelo menos um caso relatado ao NYT, o abate de um pastor em 3 de março por um helicóptero atribuído às forças israelenses.

Bagdá, segundo as reportagens, teria sido mantida à margem das operações, o que coloca em xeque a soberania iraquiana e reacende questões sobre a dinâmica de poder na região. O quadro desenha um movimento estratégico mais amplo: um redesenho de fronteiras invisíveis no tabuleiro do Oriente Médio, onde o uso de pontos avançados em territórios terceiros permite projecção de poder com menor risco direto para o ator que comanda a jogada.

Do ponto de vista da Realpolitik, a construção de bases secretas e pistas temporárias é um movimento clássico de criação de opções: alicerces móveis que permitem respostas rápidas e negar transparência ao adversário. Contudo, tais ações carregam um custo político e jurídico elevado — erosão da confiança com Bagdá, tensões com aliados regionais e um potencial catalisador de escaladas indesejadas entre Irã e seus apoiadores.

O papel americano merece destaque crítico. A cumplicidade ou permissividade dos Estados Unidos ao facilitar infraestrutura e inteligência a aliados que operam em solo de terceiros é um elemento central para entender a tectônica de poder atual: os Estados Unidos mantêm influência, mas transferem riscos críticos a parceiros regionais, numa espécie de gambito calculado.

Ao mesmo tempo, a opacidade envolvendo a segunda base e os relatos de confrontos com habitantes locais evidenciam a fragilidade dos alicerces diplomáticos que sustentam a ordem no Iraque. A consequência imediata é o agravamento da crise de legitimidade de qualquer presença militar não acordada e o aumento das possibilidades de incidentes que escapem ao controle central.

Em suma, estamos diante de um movimento estratégico de longo alcance: instalações discretas, pistas efêmeras e uma cadeia de comando que mistura interesses nacionais e alianças táticas — um xeque silencioso que pode, sem supervisão e transparência, transformar‑se em confronto aberto. A estabilidade regional exige clareza de regras e maior respeito à soberania, fatores que hoje parecem fragilizados neste setor do tabuleiro.