Crise no governo de Netanyahu: Knesset à beira do fim por causa da conscrição dos ultraortodoxos
Governo Netanyahu à beira do colapso após crise sobre a conscrição dos ultraortodoxos; Knesset pode ser dissolvida e eleições antecipadas.
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Crise no governo de Netanyahu: Knesset à beira do fim por causa da conscrição dos ultraortodoxos
Por Marco Severini, Espresso Italia
O governo de Benjamin Netanyahu enfrenta uma crise política de proporções estratégicas que pode levar ao prévio esvaziamento da Knesset e à convocação de eleições antecipadas. No centro do conflito está a decisão de não renovar a legislação que garantia a isenção dos estudantes das yeshivot ao serviço militar obrigatório, detonando a ruptura com os partidos ultraortodoxos e desestruturando os alicerces da coalizão.
Partidos do espectro de direita radical pressionaram pelo fim das isenções, enquanto o premier e o Likud defendem o recrutamento generalizado, resposta a uma carência operacional que as Forças de Defesa de Israel (IDF) já quantificaram em cerca de 12 mil soldados. O chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, tem advertido que, sem um acréscimo de recrutas, “o sistema militar corre o risco de colapso” — soma-se aqui uma dimensão militar que torna a disputa política também uma questão de segurança nacional.
A ruptura com o partido religioso Degel HaTorah desencadeou um efeito dominó. O rabino Dov Lando declarou que “não existe mais confiança em Netanyahu”, enquanto representantes políticos ultraortodoxos qualificaram o rompimento como irreversível. O partido Shas também deixou a coalizão, reduzindo a base de apoio do primeiro-ministro a apenas 50 assentos em um Parlamento de 120 cadeiras, uma menorança que fragiliza decisivamente sua capacidade de governar.
Em manobra preventiva, o próprio Likud apresentou um projeto de lei para o esvaziamento da Knesset, numa tentativa de controlar o calendário político e antecipar as jogadas da oposição. Ainda assim, o processo legislativo já entrou numa dinâmica própria e pode escapar ao controle do governo, acelerando o desfecho da legislatura.
Essa crise acontece num momento de extrema tensão regional — as Forças de Defesa mantêm operações e vigilância em múltiplos fronts desde 7 de outubro — e constitui um movimento decisivo no tabuleiro político israelense. Estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis dentro do próprio poder interno: a disputa entre imperativos de segurança e pactos eleitorais religiosos expõe as fragilidades institucionais da coalizão.
Do ponto de vista geopolítico, a potencial dissolução da Knesset e a antecipação das eleições representam uma tectônica de poder que pode reconfigurar alianças regionais e a postura de Israel perante parceiros estratégicos. A crise sobre a conscrição dos haredim não é mero detalhe administrativo; é um teste sobre a capacidade de o Estado harmonizar obrigações de defesa com privilégios corporativos que outrora sustentaram coligações.
Num plano mais amplo, a situação reflete os limites dos acordos de coalizão baseados em concessões setoriais: quando os alicerces são frágeis, um único movimento — aqui, a decisão sobre a legislação de isenção — pode provocar o colapso. A política israelense avança agora em terreno incerto, onde cada peça no tabuleiro pode determinar a geografia da próxima legislatura.
Enquanto isso, a IDF mantém seu apelo por reforços, e a economia política de segurança continuará a impor estímulos e pressões sobre os atores envolvidos. A leitura fria do momento sugere que a crise tem potencial para remodelar, de modo duradouro, o equilíbrio interno do país e as prioridades de suas políticas de defesa.