Kharg e as outras 'ilhas do tesouro' do Irã: o nó estratégico no Estreito de Hormuz
Análise estratégica: ataque americano a Kharg expõe a importância das ilhas do Irã no Estreito de Hormuz e riscos para a exportação de petróleo.
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Kharg e as outras 'ilhas do tesouro' do Irã: o nó estratégico no Estreito de Hormuz
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma tensa, a tônica de poder no Golfo Pérsico, os Estados Unidos atacaram durante a noite cerca de 90 alvos militares na ilha de Kharg, o coração logístico e energético do Irã. A operação reacende o debate sobre outras ilhas estratégicas que atuam como verdadeiras ilhas do tesouro para Teerã — e que, em um eventual escalonamento, podem tornar-se alvos.
Kharg não é apenas simbólica; é estruturalmente vital para a economia iraniana. Situada a norte do Estreito de Hormuz, a ilha árida, com extensão comparável à província italiana de Brescia, abriga o maior terminal de exportação de petróleo bruto do país. Relatórios recentes, incluindo um levantamento do banco americano JP Morgan, atribuem a Kharg o gerenciamento de cerca de 90% das exportações petrolíferas iranianas. Historicamente desenvolvida durante o boom petrolífero das décadas de 1960 e 1970, Kharg serve para compensar a pouca profundidade das águas adjacentes na costa do continente — a 24 km de distância — permitindo o embarque em superpetroleiros, muitos dos quais transportam crude com destino à China.
Em termos estratégicos, a ilha já foi identificada — durante a guerra Irã-Iraque (1980–1988) e em relatórios de inteligência ocidentais — como essencial à prosperidade e à continuidade econômica de Teerã. Analistas citados pela Reuters afirmam que os Pasdaran (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica) controlariam uma parcela significativa, até metade, das receitas petrolíferas do país, o que confere a Kharg importância tanto econômica quanto política.
Observando o tabuleiro como um jogador que calcula movimentos à frente, é preciso notar que Kharg combina infraestruturas civis e militares. O acesso à ilha é restrito e rigorosamente vigiado pelo IRGC. A presença da Marinha iraniana inclui a 112ª Brigada de Combate de Superfície Zolfaghar, composta por lanchas de ataque rápido, projetadas para a guerra naval assimétrica no Golfo. Essas embarcações, equipadas com mísseis antinavio, foguetes e minas, representam uma ameaça real a navios mercantes e unidades militares maiores que operem nas proximidades.
Além das embarcações, as defesas ao redor de Kharg englobam lançadores costeiros de mísseis, sistemas de radar, redes de vigilância e bases de drones destinadas a monitorar as atividades no Golfo Pérsico setentrional. Assim, ao mirar em Kharg, qualquer agressor confronta uma arquitetura defensiva pensada para negar liberdade de ação a potências externas — um alicerce de diplomacia militar que Teerã tem consolidado ao longo de décadas.
Na prática, danificar as infraestruturas petrolíferas da ilha poderia provocar um choque nos preços do petróleo e tensionar as relações com parceiros estratégicos do Irã, em particular a China. Foi esse cálculo, segundo fontes oficiais, que teria motivado a decisão dos EUA de não atingir instalações petrolíferas críticas na última ação, conforme confirmado pelo presidente Donald Trump, que porém advertiu sobre futuros ataques caso o Irã continue a obstruir a livre passagem naval pelo Estreito.
O foco recente dos Estados Unidos também incluiu outras ilhas: episódios anteriores mencionam ataques à ilha turística de Kish e análises apontam Abu Musa, Qeshm e a própria Hormuz como pontos sensíveis que, em um próximo capítulo, podem ser disputados. Controlar essas ilhas é controlar chaves de passagem — não apenas em termos náuticos, mas como pontos de influência que redesenham fronteiras invisíveis no xadrez geopolítico do Golfo.
Como analista, não faço previsões simplistas; observo padrões. A operação sobre Kharg é um movimento decisivo no tabuleiro: testa os limites da tolerância iraniana, recalibra relações com aliados regionais e globais, e coloca em evidência a fragilidade dos alicerces que mantêm a estabilidade do trânsito energético mundial. Nas próximas jogadas, a prudência diplomática e a precisão militar determinarão se esse confronto evoluirá para uma escalada controlada ou para um redimensionamento mais amplo das fronteiras de influência no Golfo Pérsico.


