NATO consulta Hollywood: o rearmamento do imaginário contra a Rússia
NATO articula encontros com cineastas em EUA e Europa para moldar narrativas sobre a Rússia; debate sobre ética e poder no novo campo de batalha do imaginário.
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NATO consulta Hollywood: o rearmamento do imaginário contra a Rússia
Por Marco Severini — Em um movimento que mistura diplomacia cultural e estratégia de comunicação, a NATO promoveu uma série de encontros fechados com roteiristas, diretores e produtores de cinema e televisão nos Estados Unidos e na Europa. Segundo reportagem exclusiva do The Guardian, reuniões já ocorreram em Los Angeles, Bruxelas e Paris, e um quarto encontro está previsto em Londres com integrantes da Writers’ Guild of Great Britain.
Oficialmente descritas como “conversações reservadas” e conduzidas sob a Chatham House Rule, as sessões reuniram funcionários da Aliança e profissionais do entretenimento para debater temas de segurança europeia e global. Documentos citados pela investigação indicam que as discussões já inspiraram “três projetos distintos” em desenvolvimento — prova tácita de que, hoje, a disputa por narrativas é componente de qualquer estratégia geopolítica.
Há um século, Edward Bernays descreveu a arte de moldar a opinião pública como um “governo invisível”. A contemporaneidade acrescenta plataformas de streaming e algoritmos, mas a lógica permanece: o storytelling é agora um instrumento de poder, tão relevante quanto logística militar ou sanções econômicas. Não se trata de propaganda abertamente declarada, mas de uma engenharia fina do imaginário — entretenimento que persuade ao invés de ordenar.
Historicamente, o cinema já foi identificado como vetor político — de Benito Mussolini e sua fundação de Cinecittà aos esforços de Joseph Goebbels de transformar a produção alemã em máquina mitológica do regime. Os Estados Unidos aperfeiçoaram essa arte com maior sofisticação: o que antes era cartilha passou a ser identificação emocional, sedução narrativa. Hollywood não apenas informa; ela estrutura repertórios de identificação e suspeita.
Os críticos apontam para um dilema ético: quando uma aliança militar interage com criadores de conteúdo, onde termina a colaboração legítima sobre fatos e começa a manipulação de percepções? Profissionais do setor cultural e observadores internacionais qualificaram como ultrajoso o recurso à exploração do medo para fins estratégicos, lembrando que a liberdade criativa pode tornar-se refém de objetivos geopolíticos.
Entre os nomes vinculados às conversações figura James Appathurai, ex-porta-voz da OTAN, hoje responsável por temas de tecnologias híbridas e cibernéticas. Sua presença sublinha um ponto central: o novo campo de batalha é híbrido, onde imagens, roteiros e plataformas digitais se somam a drones, mísseis e sanções. O investimento em narrativas é, portanto, um movimento decisivo no tabuleiro da influência.
Como analista que observa a tectônica de poder além das manchetes, interessa-me a arquitetura estratégica por trás desse diálogo. Estados e alianças que procuram moldar o imaginário global trabalham sobre alicerces frágeis da diplomacia cultural — não apenas para persuadir audiências, mas para redesenhar, pela via simbólica, fronteiras invisíveis de confiança e receio.
Resta saber como o setor audiovisual vai reagir: aceitar a colaboração institucional como fonte de financiamento e relevância, ou reafirmar sua autonomia criativa frente a patrocinadores de narrativas de Estado. A resposta definirá — em parte — o equilíbrio entre entretenimento e influência, num tempo em que a produção de sentido é tão estratégica quanto a mobilização de recursos militares.
Em suma, a iniciativa da NATO com Hollywood não é mero capricho cultural; é um movimento calculado no grande jogo da geopolítica contemporânea, onde a disputa pela opinião pública tornou-se extensão natural das demais dimensões do poder.