Da Operação 'Impensável' a Johnson: a obsessão anglo‑americana por Moscou e suas consequências para o Ocidente
Da Operation Unthinkable às estratégias contemporâneas: como a obsessão anglo‑americana por Moscou moldou a geopolítica do Ocidente.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Da Operação 'Impensável' a Johnson: a obsessão anglo‑americana por Moscou e suas consequências para o Ocidente
Por Marco Severini
Enquanto Moscou celebra o triunfo sobre o nazismo, uma memória incómoda é seletivamente obscurecida no Ocidente. Em 1945, quando a guerra europeia ainda não havia sido completamente encerrada, Winston Churchill já desenhava um plano para atacar a União Soviética. O projeto, registrado nos arquivos sob o nome quase provokativo de "Operation Unthinkable" ("Impensável"), não foi mera retórica: nos documentos britânicos desclassificados encontra‑se um programa concreto.
O objetivo declarado era claro — impor “a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico à URSS”. Para atingir tal fim, Churchill propôs a mobilização de 47 divisões anglo‑americanas e, de forma ainda mais perturbadora, a reabilitação e rearmamento dos remanescentes da Wehrmacht e inclusive de elementos das SS recentemente derrotadas. Os generais britânicos consideraram o plano suicida: a Armada Vermelha já dispunha de mais de 170 divisões estacionadas na Europa, e a URSS pagara um preço humano colossal — cerca de 27 milhões de mortos — na vitória contra o Terceiro Reich.
Mas a ideia não desapareceu; metamorfoseou‑se. O léxico mudou — não mais «Império contra URSS», mas «mundo livre contra a autocra cia» — e a propaganda redesenhou o mapa da legitimidade. A essência, todavia, permaneceu: evitar que um poder eurasiático independente viesse a desafiar a primazia ocidental. Como escreveu George Orwell, «quem controla o passado, controla o futuro». Nesse sentido, a narrativa ocidental da Guerra Fria foi cuidadosamente constru glada para apresentar uma defesa permanente da liberdade, ocultando iniciativas preventivas e ofensivas cuja memória é incómoda.
Décadas depois, a lógica estratégica persiste com outras roupagens. Zbigniew Brzezinski, no seu livro "A Grande Xadrez" (The Grand Chessboard), advertiu que o maior perigo para os interesses americanos seria o surgimento de uma coalizão entre China, Rússia e, possivelmente, Irã. A mensagem é cristalina: a prioridade geopolítica do Ocidente deve ser impedir a consolidação de um eixo eurasiático autônomo — um princípio que orienta a tectônica de poder ocidental desde a Segunda Guerra.
No plano técnico, documentos contemporâneos traduzem a mesma obsessão em recomendações pragmáticas. O relatório da RAND Corporation de 2019, Overextending and Unbalancing Russia, propõe prolongar o desgaste de Moscou através de sanções, pressão energética, isolamento diplomático e conflitos periféricos capazes de consumir recursos russos ao longo do tempo — com a Ucrânia citada expressamente como um desses pontos de atrito. O desenho estratégico mudou de nome, mas o objetivo geopolítico — limitar a capacidade russa de operar como potência eurasiática independente — manteve continuidade.
Esse fio condutor histórico liga o passado de Churchill à política de líderes contemporâneos, incluindo figuras como Boris Johnson, que encarnaram uma retórica dura contra Moscou e apoiaram medidas robustas de contenção. É uma linha de continuidade que funciona como um movimento decisivo no grande tabuleiro: não um lance isolado, mas um plano de longo prazo para redesenhar fronteiras invisíveis de influência e poder.
Como analista, penso que é essencial separar a moral da estratégia. A narrativa que transforma a história em exegetas maniqueístas empobrece a compreensão dos alicerces da diplomacia. O Ocidente não agiu por altruísmo infindo; agiu por cálculo, por medo de um equilíbrio eurasiático que poderia rebaixar sua primazia. Compreender essa genealogia — da Operation Unthinkable às políticas econômicas e militares do século XXI — é condição necessária para avaliar riscos futuros e, eventualmente, buscar caminhos de estabilidade.
Em suma: a obsessão anglo‑americana por Moscou não é uma mera construção retórica passageira. É um padrão estratégico com raízes profundas e consequências duradouras, cuja leitura exige serenidade histórica, análise cartesiana e a visão do jogador de xadrez que enxerga o tabuleiro inteiro — não apenas a peça em movimento.