Da surpresa de Pak Doo-ik em 1966 à queda em 2026: a anã tectônica das derrotas da seleção italiana
Da surpresa de Pak Doo-ik em 1966 à eliminação para a Bósnia em 2026: análise estratégica da crise da seleção italiana e o caminho para reconstrução.
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Da surpresa de Pak Doo-ik em 1966 à queda em 2026: a anã tectônica das derrotas da seleção italiana
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, mais uma vez, os alicerces do futebol italiano, a Itália foi eliminada nos playoffs para a Copa do Mundo Estados Unidos-Canadá-México 2026 pela Bósnia, consumando a terceira ausência consecutiva da seleção no torneio mais importante do futebol global. É um retrocesso que remete a episódios fundadores de desilusão, com raízes que se estendem desde o célebre capítulo de 1966.
O resultado não é apenas um tropeço em campo; é um movimento decisivo no tabuleiro institucional. Depois do fracasso nos playoffs para o Qatar 2022 e da ausência em Rússia 2018, a atual eliminação reabre feridas e expõe fragilidades nos alicerces da FIGC. A estabilidade da presidência e das escolhas técnicas está sob tensão, e a fragilidade fica explícita quando as engrenagens estratégicas — formação, sucessão de treinadores, modelo de clube e base juvenil — parecem desalinhadas.
Retornemos ao princípio simbólico: o Mundial inglês de 1966. A Itália de Edmondo Fabbri, então considerada uma das favoritas, sucumbiu diante da Coreia do Norte num resultado que chocou o planeta futebol. O gol de Pak Doo-ik, numa tarde em Liverpool, não foi apenas uma derrota esportiva; foi um espelho que mostrou zonas de presunção, lacunas táticas e a surpresa que pode emergir do desconhecido. Ao contrário do que alguns relatos posteriores sugeriram, aquela eliminação ocorreu na fase de grupos e não nas quartas — o fato, porém, não diminui seu impacto simbólico.
Desde então, a trajetória italiana tem sido um mosaico de glórias e fossos: quatro títulos mundiais (1934, 1938, 1982 e 2006) construíram um patrimônio de excelência; mas episódios de ausência — como a não-classificação para a Suécia 1958 — e fracassos mais recentes inscrevem uma cicatriz persistente. A década atual viu oscilações dramáticas: a tragédia das eliminatórias de novembro de 2017 sob Gian Piero Ventura, a redenção de Euro 2020 com Roberto Mancini e o novo rebaixamento pós‑Qatar.
O ecosistema federativo sofreu: a queda de Tavecchio em 2017 foi um abalo, e hoje a gestão de Gabriele Gravina enfrenta críticas e resistências. Diferente de episódios em que a presidência foi forçada à saída, a atual liderança resiste — talvez compreendendo que renúncias súbitas poderiam provocar ainda maior instabilidade numa arquitetura já abalada. No entanto, a pergunta estratégica permanece: quem fará o próximo movimento no tabuleiro, reconhecendo que decisões superficiais produzirão apenas soluções cosméticas?
O futebol italiano não precisa apenas de correções técnicas; precisa de um redesenho de médio e longo prazo: investimento em formação, integração entre clubes e seleção, e uma visão coordenada que respeite a história sem se aprisionar a ela. A ilusão do retorno rápido é perigosa — a reconstrução exige tempo e uma arquitetura de reformas.
Ao torcedor, resta a amargura da repetição. Ao estrategista, a constatação de que o poder esportivo é tectônico: raros sismos — vitórias ou derrotas — redesenham linhas de influência. A ausência na Copa 2026 é mais que uma falha competitiva; é um chamado para repensar o projeto nacional. Como em um final de partida de xadrez, cada peça removida traduz uma nova configuração de forças. Cabe à Federação e aos clubes moverem-se agora com a calma e a clareza que a situação exige.
Enquanto isso, permanece a memória de Pak Doo-ik e a lição histórica: surpresas externas podem expor fragilidades internas. A Itália volta ao ponto de partida — não como catástrofe final, mas como momento de decisão estratégica. A questão é se as ações seguintes serão construtivas e robustas, capazes de reconstruir o caminho para um novo ciclo de hegemonia ou se permaneceremos perante um tabuleiro de xadrez com peças frágeis e planos desconexos.