Retirada anunciada: tropas dos EUA deixam o Iraque até setembro; al-Zaidi e Washington pressionam pelo desarmamento de milícias pró-Irã
EUA anunciam retirada de tropas do Iraque até setembro; al-Zaidi e Washington pressionam por desarmamento de milícias pró-Irã.
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Retirada anunciada: tropas dos EUA deixam o Iraque até setembro; al-Zaidi e Washington pressionam pelo desarmamento de milícias pró-Irã
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com cautela, o tabuleiro estratégico no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a decisão de retirar as últimas troupes EUA estacionadas no Iraque até o fim de setembro. A declaração foi proferida na Casa Branca na presença do recém-eleito primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, que confirmou o cronograma e coordenou os pormenores logísticos para a execução da retirada.
O gesto simboliza, ao menos formalmente, o encerramento de um capítulo iniciado com a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 — um período de ocupação que, em termos cronológicos, se estendeu por cerca de 23 anos — e abre uma nova fase nas relações bilaterais centrada em acordos de segurança e soberania nacional.
Ao mesmo tempo em que se organiza a saída dos efetivos norte-americanos, cresce a ênfase de Washington sobre a necessidade de um processo de desarmamento e centralização do controle das forças militares no âmbito das instituições de Bagdá. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, reiterou publicamente a exigência para que o governo de al-Zaidi incorpore e neutralize as milícias filo-Irã, apresentadas por Washington como potenciais vetores de instabilidade.
No terreno, já há desdobramentos concretos: o grupo xiita Asa'ib Ahl al-Haq — parte do arco de forças identificado como resistência pró-iraniana — anunciou a entrega de parte do seu armamento às autoridades centrais de Bagdá. Antes dele, a milícia Saraya al-Salam também passou a ser formalmente subordinada ao governo, e líderes como Muqtada al-Sadr aceitaram submeter a ala armada de seus movimentos a autoridades estatais.
Entretanto, a tectônica do poder ainda não está cristalizada. Formações como Kata'ib Hezbollah e Harakat al-Nujaba permanecem refratárias à integração e resistem a influências externas, mantendo um núcleo de oposição ao enquadramento imposto por Washington e por Bagdá. O resultado é um quadro de transição em que o Estado procura restabelecer o monopólio legítimo da força enquanto vieiras de lealdade regional e sectária se rearranjam.
Do ponto de vista prático, as forças mencionadas permaneceram no Iraque após a missão de 2014 — inicialmente desenhada para treinar tropas iraquianas em operações anti-ISIS — e uma presença residual foi mantida até a conclusão dessa missão em 2024. Agora, com o anúncio da retirada, Bagdá e Washington planejam os passos logísticos e diplomáticos para concretizar a saída.
Como em uma partida de xadrez em que um grande jogador retira uma peça estratégica, a medida dos EUA altera canais de influência e cria um novo espaço político. A prioridade para Bagdá será consolidar a soberania sem transformar o vácuo deixado em oportunidade para atores externos reconfigurarem alianças. Para Washington, o desafio consiste em garantir que a retirada não produza um retrocesso na estabilidade regional, exigindo, por isso, que o desarmamento das milícias pró-Irã avance de forma verificável.
Este é um momento de alicerces frágeis na diplomacia iraquiana: a saída das troupes EUA marca tanto o fim de uma era como o início de um novo capítulo em que o equilíbrio entre Estado, milícias e potências regionais determinará o contorno do futuro imediato do país.