Sánchez desafia a China: peça decisiva para reforçar o multilateralismo e conter guerras
Sánchez pede à China maior compromisso com o multilateralismo e o respeito ao direito internacional para encerrar conflitos globais.
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Sánchez desafia a China: peça decisiva para reforçar o multilateralismo e conter guerras
Por Marco Severini — Em pronunciamento na Universidade de Tsinghua, em Pequim, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, lançou um apelo direto: a China deve assumir um papel mais incisivo no fortalecimento do multilateralismo e na proteção do direito internacional. A intervenção, primeiro ato oficial de sua visita, desenhou-se como um movimento calculado no tabuleiro diplomático, em que Madrid procura alinhar princípios europeus com a crescente influência de Pequim.
Sánchez reconheceu que a China já desempenha funções relevantes — como motor do comércio global e ator-chave na mitigação da pobreza e das alterações climáticas — mas advertiu que isso não isenta o país de maior responsabilidade: "A China faz muito, e isso é apreciado, mas pode e deve fazer mais, exigindo o respeito do direito internacional e contribuindo para o fim dos conflitos", declarou.
O primeiro-ministro espanhol citou explicitamente teatros de crise que atravessam o sistema internacional: do Irã à Ucrânia, do Líbano a Gaza e à Cisjordânia. Conectou sua mensagem ao recente fracasso das negociações entre Estados Unidos e Irã ocorrido no fim de semana, sublinhando que a ordem global não se sustenta sem regras compartilhadas e sem o engajamento das grandes potências.
Na leitura de Sánchez, a atual fase histórica não corresponde a uma simples transferência de hegemonia, mas sim a uma multipolaridade — uma multiplicação de polos de poder e prosperidade. Esta tectônica de poder reclama, portanto, cooperação estruturada. Para Espanha, isso passa por um eixo de diálogo com grandes democracias emergentes: Brasil, Índia, África do Sul e México, além do tradicional laço transatlântico.
O primeiro-ministro reforçou também a centralidade da Europa como ator imprescindível à estabilidade, recordando que sem uma União Europeia coesa dificilmente se construirá um ordem internacional equilibrada. Instou Pequim a não subestimar o peso do bloco — "o maior bloco comercial do mundo e uma das principais economias globais" — e a colaborar para relações comerciais mais recíprocas e equilibradas.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem de Sánchez é clara e contida: trata-se de solicitar um movimento decisivo no tabuleiro — não para confrontar, mas para integrar a China nas responsabilidades globais, desde a governança climática até a provisão de bens públicos globais e a gestão de crises. Em termos de arquitetura diplomática, pediu-se mais envolvimento das grandes potências na proteção de regras que sustentem a paz.
Em resumo, o discurso adotou um tom de alicerce prudente: reconhecer a relevância crescente de Pequim, ao mesmo tempo em que se reivindica um compromisso reforçado com o direito internacional e com soluções multilaterais para os conflitos que fragilizam a ordem global. É um convite à cooperação estratégica, numa cartografia onde as peças se movem com maior interdependência — e onde uma jogada bem calibrada de Pequim pode alterar os contornos de estabilidade nos próximos anos.