Sánchez no Vaticano: denúncia na FAO — “A fome tornou-se uma arma mais barata que mísseis”

Sánchez encontra o Papa e alerta na FAO que a fome está a ser usada como arma, mais barata que mísseis; apelo ao multilateralismo e defesa do direito internacional.

Sánchez no Vaticano: denúncia na FAO — “A fome tornou-se uma arma mais barata que mísseis”

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Sánchez no Vaticano: denúncia na FAO — “A fome tornou-se uma arma mais barata que mísseis”

Por Marco Severini — Em um movimento diplomático de alto simbolismo, o primeiro‑ministro espanhol Pedro Sánchez foi recebido hoje pelo Papa Leão XIV. Antes do encontro com o Pontífice, estava agendado um breve interlocução, às 9h30, com o cardeal Pietro Parolin, gesto protocolar que antecede a visita papal à Espanha, marcada para 6 a 12 de junho. O episódio se desenrola num momento em que a tectônica de poder global e as fraturas regionais projetam sombras sobre a segurança alimentar e o direito internacional.

Em texto publicado nas redes, Sánchez saudou a primeira encíclica do Pontífice, “Magnifica Humanitas”, descrevendo‑a como um apelo que nos interpela coletivamente: a Inteligência Artificial não é neutra e o poder digital, se desvinculado do bem comum, pode conduzir a novas atrocidades. Para o chefe do governo espanhol, o documento é também uma defesa da paz, da dignidade humana e do multilateralismo — alicerces frágeis, porém essenciais, da diplomacia contemporânea.

Não houve, contudo, encontro entre Sánchez e a presidente do Conselho italiano, Giorgia Meloni, devido a incompatibilidades de agenda, segundo o governo espanhol. No plano doméstico, a permanência de Sánchez no tabuleiro político de Madrid está sendo pressionada pela inscrição do ex‑primeiro‑ministro José Luis Rodríguez Zapatero no registro de investigados da Audiencia Nacional, no âmbito do resgate financeiro da companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. Zapatero está convocado a depor em 2 de junho perante a Corte Nacional.

Na véspera, Sánchez discursou na FAO, em evento vinculado à Semana da Nutrição, onde proferiu um apelo duro: defender o direito internacional contra as “ilusões” de quem, nas palavras do premiê, atira fósforos no tabuleiro global. “É inacreditável que a humanidade não tenha vencido de vez a luta contra a fome”, disse. Para Sánchez, a fome tem sido instrumentalizada como uma arma — “muito mais barata que os mísseis usados em guerra” — e é parte do repertório de quem pretende derrotar um adversário submetendo populações ao desabastecimento.

O primeiro‑ministro citou o caso de Gaza como exemplo de uma estratégia em que se busca a vitória pela privação alimentar da população civil. Recordou ainda o episódio recente em que membros de uma flotilha humanitária foram humilhados e maltratados enquanto tentavam entregar ajuda humanitária. “Precisamos que as sociedades do mundo, com a mesma determinação com que rejeitamos a guerra, digam não também à fome”, advertiu, classificando esses conflitos como “injustos e ilegais” e responsáveis por crises alimentares de proporções inéditas.

Ao retomar a crítica do Papa, que chamou a fome de escândalo e fracasso coletivo da humanidade, Sánchez conclamou a ação multilateral: a resposta às guerras e à instrumentalização da fome exige não apenas declarações, mas mecanismos de proteção do direito internacional e rotas de assistência humanitária seguras. Em termos estratégicos, tratou‑se de um movimento que pretende reposicionar a Espanha não como espectadora resignada, mas como ator proativo na defesa dos princípios que definem a convivência civilizada entre Estados.

Como analista, observo que este gesto — audiência no Vaticano, discurso na FAO e mensagens públicas em cadeia — compõe uma jogada de múltiplas camadas: afirma liderança moral, busca respaldo ético para pressões diplomáticas e tenta amortecer tensões internas no calendário político de Madrid. No tabuleiro internacional, são movimentos pensados para preservar o multilateralismo e evitar o redesenho de fronteiras invisíveis que se faz pela escassez.

Em última análise, a intervenção de Sánchez sublinha uma verdade desconfortável: quando a fome se transforma em instrumento de guerra, não estamos apenas diante de uma crise humanitária, mas frente a uma estratégia deliberada de poder que exige resposta coordenada — jurídica, diplomática e logística — da comunidade internacional.