O problema chama-se sionismo: do legado de Jabotinski ao papel de Ben-Gvir

Uma análise histórica e estratégica do sionismo, de Jabotinski a Ben-Gvir, e suas implicações para a estabilidade regional.

O problema chama-se sionismo: do legado de Jabotinski ao papel de Ben-Gvir

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O problema chama-se sionismo: do legado de Jabotinski ao papel de Ben-Gvir

Por Marco Severini — 21 de maio de 2026

Nas noites televisivas recentes, o comportamento dos apresentadores e comentaristas revela um padrão quase uniforme: a tentativa de concentrar a responsabilidade pelo episódio dos prisioneiros da flotilha em uma figura singular, Ben-Gvir. Canais de referência chegaram a dedicar blocos inteiros para reconstruir a biografia do ministro, rotulando-o — como fez Mentana — de “supremacista, racista, fascista”.

Essa focalização é conveniente, porém simplista. A minha leitura, de diplomata da informação, é mais estruturada: o problema central não é apenas um indivíduo; o problema chama-se sionismo.

Para compreender a continuidade das práticas e das mentalidades que hoje vemos encarnadas por figuras como Ben-Gvir, é necessário remontar às origens ideológicas surgidas nas décadas iniciais do século XX. O movimento conhecido como sionismo revisionista, liderado por Jabotinski, forjou alicerces intelectuais e estratégicos que moldaram grande parte da direita israelense moderna.

Zeev Jabotinski, nascido em Odessa, deixou um legado que ultrapassa a sua biografia: dele se originaram princípios de intransigência e rejeição ao diálogo com a população árabe da Palestina. No ensaio-manifesto frequentemente citado, “O Muro de Ferro”, Jabotinski argumentava que qualquer tentativa de acordo voluntário seria inútil e que a colonização requereria, se necessário, a remoção dos habitantes locais. Essa linha de pensamento desembocou, historicamente, em expulsões e naquilo que a narrativa palestina denomina Nakba de 1948.

Jabotinski também participou da formação de organizações paramilitares. Criticando a relativa moderação da Haganà, criou a Irgun, que recorreu a ações violentas tanto contra populações árabes quanto contra as autoridades britânicas. A transformação posterior em partido político — Herut — e a fusão de 1973 que originou o Likud demonstram um fio ideológico que liga aquele momento fundador às lideranças contemporâneas: Menachem Begin, Yitzhak Shamir, Ariel Sharon e, em termos recentes de influência e estratégia, Benjamin Netanyahu.

Dizer, hoje, que o problema reside apenas em um ministro é postergar o enfrentamento de uma questão de profundidade histórica: a tectônica de poder que o sionismo revisionista ajudou a consolidar no tabuleiro do Oriente Médio. Se o mundo pretende tratar o fenómeno de forma eficaz, precisa enxergar além do lance imediato e desenhar uma estratégia que leve em conta as raízes ideológicas, as instituições partidárias e os deslocamentos de população que ainda reverberam.

Em termos diplomáticos, trata-se de reconhecer que movimentos políticos carregam arquiteturas de pensamento que sobrevivem a indivíduos. O confronto eficaz com estas arquiteturas exige análise paciente, alianças de interesse e uma visão de longo prazo — um movimento decisivo no tabuleiro que não se reduz à captura simbólica de um peão.

Ao permitir que o debate público reduza o tema a um nome conveniente, perde-se a oportunidade de lidar com a origem das dinâmicas que produzem episódios repetidos de violência e exclusão. Essa é a dimensão que, como analista, proponho trazer à mesa: uma leitura estratégica, informada pela história e orientada para a estabilidade regional.

Marco Severini
Analista sênior de geopolítica — Espresso Italia