Siria: julgamento de Atef Najib, primo de Al Assad, começa e é adiado — primeiro réu da cúpula a comparecer em público

Julgamento de Atef Najib, primo de Al Assad, começa e é adiado; é o primeiro réu da cúpula a comparecer publicamente. Processo segue com pedidos de responsabilização.

Siria: julgamento de Atef Najib, primo de Al Assad, começa e é adiado — primeiro réu da cúpula a comparecer em público

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Siria: julgamento de Atef Najib, primo de Al Assad, começa e é adiado — primeiro réu da cúpula a comparecer em público

Por Marco Severini — Em um movimento que marca um ponto de inflexão no lento desenrolar da justiça pós-regime, iniciou-se ontem o julgamento de Atef Najib, primo do ex-presidente Bashar al-Assad e ex-chefe da Segurança Política em Daraa. A audiência inaugural perante a Quarta Corte Penal de Damasco foi, contudo, imediatamente adiada para o dia 10 de maio de 2026, conforme anúncio do juiz.

Segundo a agência estatal Sana, Najib responde a acusações relacionadas a crimes cometidos contra o povo sírio. Trata-se do primeiro réu pertencente à estreita cúpula do regime deposto — que governou por quase 25 anos até dezembro de 2024 — a comparecer em um processo público. À sessão assistiram parentes de vítimas, além de advogados árabes e internacionais, num cenário que mescla expectativa, dor e uma demanda pública por responsabilização.

Imagens transmitidas pela emissora al Ikhbariya mostraram Najib na cela dos réus, quadro que reverberou pelo país e foi acompanhado com respirações contidas por uma população que busca ver na justiça a reconstrução dos alicerces frágeis da convivência coletiva.

Relatos oficiais e testemunhos indicam que Najib, preso em janeiro de 2025, formou-se na Academia Militar antes de ingressar nos serviços de inteligência, ocupando diferentes cargos, notadamente no ramo da Segurança Política em Daraa. É acusado de ser um dos responsáveis iniciais pelas violações contra civis em Daraa — cidade de onde nasceu a revolta de 2011 — incluindo a detenção e tortura de crianças que escreveram slogans contra o regime em paredes, episódio que incendiou os primeiros protestos e, em cadeia, contribuiu para a guerra civil que tomou a Síria entre 2011 e o final de 2024.

O adiamento da audiência provocou reações imediatas na sala do tribunal: familiares das vítimas e presentes manifestaram-se com gritos que pediam paz e justiça, enquanto nas ruas de Daraa houve manifestações de satisfação ao ver Najib no banco dos réus. Testemunhos ouvidos na sessão lembraram humilhações, abusos, mortes de menores, prisões e relatos de tortura, compondo um mosaico doloroso que sustenta as acusações.

Paralelamente, fontes judiciais informam que outros processos seguem em andamento contra indivíduos considerados "foragidos", entre os quais figuram nomes do alto escalão do antigo regime: o próprio Bashar al-Assad — hoje exilado na Rússia segundo relatos —, seu irmão e comandante da Quarta Divisão Maher Assad, o ex-ministro da Defesa Fahd Jassem al-Freij, além de antigos chefes de inteligência como Laith al-Ali e Wafiq Nasser, o parente Wassim al-Assad e o ex-Grão Mufti Ahmed Badreddin Hassoun. Esse conjunto de inquéritos e mandados compõe um quadro judicial que busca, peça por peça, desmontar os mecanismos de impunidade que sustentavam o regime.

As demandas populares também apontam para a prisão recente de Amjad Youssef, identificado como um dos principais responsáveis pelo massacre de Tadamoun, em 2013, em Damasco. Autoridades anunciaram sua detenção no final da semana anterior, numa operação creditada ao ministro do Interior Anas Khattab, com fontes afirmando que Youssef, ex-oficial dos serviços de inteligência, foi detido na província de Hama.

Do ponto de vista estratégico, este episódio — o comparecimento público de um membro da estreita cúpula e o anunciado prosseguimento de processos contra figuras nucleares do antigo poder — configura um movimento decisivo no tabuleiro da transição síria: um passo judicial que procura redesenhar fronteiras invisíveis do poder e estabelecer precedentes para a responsabilização. Resta observar como o Estado nascente manejará o equilíbrio entre pressões internas por justiça e as necessidades de estabilidade que exigem prudência e processo rigoroso, sob o olhar atento da comunidade internacional.