Sudão expulsa 12 mil estrangeiros após retomada de Khartoum; operação revela nova tectônica de poder

Sudão expulsa 12 mil estrangeiros após retomada de Khartoum; operações destacam crise humanitária e novo redesenho do poder no país.

Sudão expulsa 12 mil estrangeiros após retomada de Khartoum; operação revela nova tectônica de poder

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Sudão expulsa 12 mil estrangeiros após retomada de Khartoum; operação revela nova tectônica de poder

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma pragmática e severa, os alicerces da ordem interna, as autoridades do Sudão informaram a expulsão de cerca de 12 mil estrangeiros considerados “ilegais” após uma série de operações destinadas a consolidar o controle da capital. O anúncio foi feito pelo porta-voz da polícia, o coronel Fath al‑Rahman, que detalhou que, no total, mais de 16 mil pessoas foram detidas durante 456 operações de inspeção destinadas a verificar o status de residência dos moradores de Khartoum.

Segundo o comunicado oficial, das aproximadamente 16 mil detenções, cerca de 12 mil indivíduos já teriam sido repatriados “aos seus países de origem”, sem que as autoridades tenham especificado quais Estados receberam essas devoluções. Além disso, cerca de 7 mil refugiados foram transferidos para campos localizados fora da capital, conforme informaram as autoridades.

Este conjunto de medidas foi lançado após a retomada de Khartoum pelo Exército sudanês, em maio de 2025, quando a capital foi retirada do controle do grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF). O Estado, ao reivindicar a recuperação do espaço urbano, deflagrou uma operação de “controle populacional” que, segundo as declarações oficiais, visou também àquela que consideram a presença de combatentes estrangeiros que teriam atuado ao lado das Forças Armate Rivoluzionarie (FAR).

Do ponto de vista humanitário e geopolítico, a ação insere‑se em um tabuleiro de xadrez onde segurança interna e legitimidade do Estado se confrontam com direitos humanos e normas internacionais de proteção a migrantes e refugiados. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) lembra que o Sudão já abriga mais de 1 milhão de refugiados, majoritariamente oriundos do Sudão do Sul e do Chifre da África (Etiópia, Eritreia e Somália), muitos dos quais usam o país como rota de trânsito para a Europa, via Líbia e Egito e através de rotas desérticas.

A escalada de violência decorrente do conflito interno — uma guerra que, segundo estimativas norte‑americanas, já provocou cerca de 400 mil mortes — converteu o Sudão num epicentro de fome e deslocamento: cerca de 21,2 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar severa e outras 14 milhões foram forçadas a abandonar suas casas, números que, para as Nações Unidas, colocam o país no patamar da maior crise de deslocamento e fome do mundo.

À luz desses dados, a operação de expulsões e transferências deve ser lida tanto como um gesto de afirmação de soberania por parte do Exército quanto como um movimento de engenharia social que pode ter repercussões regionais. A gestão dos fluxos migratórios, o destino dos repatriados e a condição dos refugiados transferidos para acampamentos fora de Khartoum formam agora um nó crítico na arquitetura da estabilidade no Sahel e no Corno da África.

Na cartografia das influências, este é um movimento decisivo no tabuleiro: restará saber se as forças que reconstroem o Estado farão isso sobre fundamentos sustentáveis — reintegração, proteção e cooperação internacional — ou sobre alicerces frágeis que podem reativar deslocamentos e tensão transfronteiriça. A resposta definirá, nos próximos meses, os contornos da crise humanitária e o equilíbrio de poder na região.