Temu multada em 200 milhões pela UE por venda de produtos ilegais sob o DSA
Comissão Europeia aplica multa de 200 milhões à Temu por venda de produtos ilegais, exigindo plano de ação até 28/08/2026 sob o DSA.
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Temu multada em 200 milhões pela UE por venda de produtos ilegais sob o DSA
Por Marco Severini — A Comissão Europeia aplicou à plataforma chinesa de comércio eletrônico Temu uma sanção de 200 milhões de euros por falhas na garantia da segurança e da licitude dos produtos oferecidos aos cidadãos da UE. A penalidade, anunciada no quadro do Digital Services Act (DSA), marca um movimento decisivo no tabuleiro regulatório europeu sobre plataformas digitais de grande escala.
Os números de referência explicam o contexto: em 2025 a empresa declarou um volume de negócios de cerca de 54 bilhões de euros, com aproximadamente 120 milhões de euros de lucros reportados apenas no mercado europeu. A multa aplicada está claramente abaixo do teto previsto pelo regulamento — até 6% do faturamento global —, mas carrega um peso simbólico e técnico, pois resulta de uma avaliação pormenorizada que ponderou "a natureza da infração, sua gravidade, frequência e duração".
Bruxelas qualificou as violações como "graves", embora tenha usado um horizonte temporal relativamente curto para calcular o valor da sanção: a janela considerada vai do momento em que as obrigações do DSA passaram a ser aplicáveis à Temu até a adoção da avaliação de risco por parte da Comissão. Em termos estratégicos, trata-se de um movimento que busca calibrar o castigo à evidência concreta disponível, sem, no entanto, minimizar a tensão estrutural detectada.
A investigação da Comissão concluiu que há uma "elevada probabilidade" de consumidores europeus se depararem com produtos ilegais ou não conformes na plataforma. A avaliação de riscos apresentada pela Temu em 2024 foi considerada demasiado genérica, baseada em dados setoriais em vez de evidências específicas do serviço — ignorando relatórios públicos e testes independentes que apontaram problemas. Fontes internas de Bruxelas referem-se ainda a operações de mystery shopping que detectaram uma percentagem muito elevada de produtos ilegais, sobretudo entre equipamentos eletrónicos.
Além da ausência de uma análise robusta do conteúdo, a Comissão critica a falta de avaliação sobre como o design do serviço — desde os sistemas de recomendação até os mecanismos de promoção via afiliados e influencers — pode amplificar a disseminação de ofertas não conformes. Em linguagem da arquitetura da governança digital: a plataforma teria deixado frágeis os alicerces da mitigação de riscos sistêmicos.
Os setores mais afetados, segundo Bruxelas, incluem brinquedos infantis — com não conformidades químicas e riscos de asfixia — e joias, áreas nas quais as taxas de desconformidade foram consideradas inaceitavelmente altas. Observações semelhantes vinham sendo feitas por associações de consumidores em vários Estados-membros.
A Temu tem prazo até 28 de agosto de 2026 para apresentar um plano de ação que corrija as lacunas apontadas e responda formalmente às objeções da Comissão. A Casa Comissária deixa claro que plataformas de dimensão muito grande são obrigadas, pelo DSA, a avaliar diligentemente os riscos sistêmicos e a implementar medidas de mitigação que alcancem o ponto crítico entre eficiência comercial e segurança pública.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, a decisão mostra o redimensionamento das fronteiras invisíveis entre soberania regulatória e comércio digital global. É um movimento de cartografia do poder: a União Europeia, ao aplicar o DSA com pragmatismo técnico, delimita espaços de operabilidade para gigantes extracomunitários sem recorrer a rupturas intempestivas, mas estabelecendo regras claras do jogo.
A resposta formal da Temu, ao encerramento da presente matéria, afirmou respeito aos objetivos do DSA e indicou intenção de cooperar com as autoridades; contudo, o caso seguirá em observação até a apresentação do plano de conformidade. No tabuleiro que redesenha a governança das plataformas, a próxima jogada caberá à própria Temu — e à precisão do seu plano de mitigação.