Trump ameaça destruir oleodutos em Kharg e minimiza Irã: 'tigre de papel' no xadrez do Estreito de Ormuz
Trump ameaça destruir oleodutos em Kharg e chama Irã de 'tigre de papel'; coalizão para o Estreito de Ormuz enfrenta hesitações entre aliados.
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Trump ameaça destruir oleodutos em Kharg e minimiza Irã: 'tigre de papel' no xadrez do Estreito de Ormuz
Por Marco Severini — Em pronunciamento na Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu Teerã que bastaria "uma palavra" para que a rede de oleodutos na ilha de Kharg, crucial para a exportação de petróleo do Irã, fosse "distruída". A declaração, proferida num tom de dissuasão estratégica, pretende redesenhar sem ruídos os alicerces da presença iraniana no Golfo Pérsico.
Trump afirmou que, desde o início da operação militar, em 28 de fevereiro, as forças americanas teriam atacado "mais de sete mil alvos" em território iraniano e destruído cerca de cem embarcações. "A campanha militar prosseguiu a pleno ritmo nos últimos dias", disse o presidente, acrescentando que as capacidades militares do Irã foram "literalmente aniquiladas" — com a aeronáutica e a marinha, segundo ele, reduzidas a formas residuais, e numerosas embarcações afundadas.
Segundo o mandatário, os lançamentos de mísseis balísticos iranianos registraram queda de 90% e os ataques por drones caíram 95%. Trump também afirmou que os Estados Unidos destruíram "mais de 30 embarcações colocadoras de minas" e que a capacidade operacional dos drones iranianos estaria "reduzindo quase a zero".
No seu discurso, o presidente descreveu a República Islâmica como uma "tigre de papel", minimizando a ameaça imediata representada por Teerã: "aquilo com que lidamos agora é uma tigre de papel — não era assim há duas semanas", afirmou, numa tentativa clara de moldar percepções internacionais sobre a eficácia e sustentação do poder militar iraniano.
Sobre a iniciativa de Washington para formar uma coalizão voluntária destinada a garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, Trump disse que "muitos países" sinalizaram participações, porém com distintos níveis de entusiasmo: "alguns muito entusiasmados, outros menos". O presidente destacou que, após décadas de proteção americana — "40 anos que os protegemos" — vários aliados mostraram relutância em se envolver diretamente nas operações navais.
Questionado sobre um eventual papel da França, Trump afirmou acreditar que Paris "ajudará" e relatou ter conversado por telefone com Emmanuel Macron, a quem atribuiu um 8 numa escala de 0 a 10: "não é perfeição, mas é a França". Por outro lado, o presidente declarou estar "muito surpreso" com a decisão do Reino Unido de não participar das ações militares contra o Irã.
Interpretando esses movimentos como peças de um jogo estratégico maior, é preciso analisar a tessitura das alianças e as fragilidades diplomáticas que se expõem. A retórica punitiva sobre Kharg e o discurso de aniquilação das capacidades iranianas buscam não apenas degradar meios, mas também forçar realinhamentos geopolíticos — um movimento decisivo no tabuleiro em que o controle do tráfego energético e a arquitetura da segurança regionais são as peças mais valiosas.
Enquanto a retórica se endurece, permanece a incógnita sobre até que ponto as ameaças poderão ser tradadas em ações que reconfigurem de fato a tectônica de poder no Golfo. Na ausência de consenso aliado pleno, a prudência diplomática e a leitura fria do mapa de riscos continuam sendo o melhor instrumento para evitar uma escalada que derrube mais do que infraestruturas: as frágeis bases da estabilidade regional.


