Ucrânia aposta em robôs e drones terrestres para reduzir baixas e virar o jogo no campo de batalha
Ucrânia amplia uso de robôs e drones terrestres para reduzir baixas; 22 mil missões em três meses e meta de substituir 1/3 da fanteria por tecnologia.
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Ucrânia aposta em robôs e drones terrestres para reduzir baixas e virar o jogo no campo de batalha
Por Marco Severini — Em um movimento que redefine peças e linhas no tabuleiro da guerra, a Ucrânia amplia o emprego de robôs e drones terrestres como resposta à superioridade numérica das forças da Rússia. A estratégia declarada por comandantes locais visa substituir cerca de um terço da fanteria por sistemas robotizados ainda este ano, reduzindo perdas humanas e aumentando a capacidade de manobra remota.
Mykola "Makar" Zinkevych, comandante da unidade ucraniana NC13 da Terceira Brigada de Assalto Independente, relatou à CNN que operações recentes foram conduzidas por equipes que controlavam veículos e drones a quilômetros da linha de frente. "A posição foi conquistada sem disparar um único tiro", disse Zinkevych, descrevendo missões que culminaram na captura de prisioneiros russos por meio de robôs e drones, sem o envolvimento direto da fanteria.
Há anos os céus sobre os frontes ucranianos são preenchidos por drones aéreos; a novidade tática é a difusão acelerada de drones terrestres — veículos remotamente controlados sobre rodas ou lagartas. Inicialmente usados para evacuar feridos e reabastecer tropas, esses sistemas passaram a executar assaltos e missões de combate com frequência crescente.
As qualidades operacionais desses sistemas explicam a opção: drones terrestres são mais difíceis de localizar e interceptar que veículos maiores; funcionam em qualquer condição meteorológica; transportam cargas mais pesadas; e apresentam maior autonomia de bateria. Um relato do fim do ano passado citado pelo comando local afirma que um único robô terrestre equipado com metralhadora conseguiu deter uma investida russa por 45 dias, exigindo apenas manutenção leve e recarga a cada dois dias.
O presidente Zelensky declarou recentemente que, nos últimos três meses, drones e robôs realizaram mais de 22 mil missões. "Mais de 22 mil vidas foram salvas quando um robô entrou nas zonas mais perigosas no lugar de um soldado", afirmou, celebrando os avanços da indústria tecnológica militar ucraniana.
Analistas como Robert Tollast, do Royal United Services Institute (RUSI), observam que esses progressos alteram a dinâmica da guerra terrestre: não se trata apenas de substituir um corpo pela máquina, mas de remodelar os alicerces da batalha, transferindo decisões críticas para operadores remotos e plataformas automatizadas. É um redesenho de fronteiras invisíveis, onde o alcance e a persistência das máquinas compensam a desvantagem numérica.
Do ponto de vista estratégico, a adoção massiva de sistemas robotizados é um movimento decisivo no tabuleiro: procura mitigar uma limitação estrutural — a inferioridade de efetivos — por meio da superioridade tecnológica. Essa tectônica de poder levanta questões sobre logística, manutenção em campanha e guerra eletrônica: o sucesso dependerá não só do hardware, mas da cadeia de comando, das comunicações seguras e da resiliência industrial.
Em suma, a experiência ucraniana aponta para um futuro de combates cada vez mais mediados por máquinas — não porque os humanos deixem de ser centrais, mas porque as perdas humanas podem ser deliberadamente reduzidas ao deslocar-se o risco para plataformas remotamente operadas. Como em uma partida de xadrez de alta tensão, cada novo sistema inserido no tabuleiro pode obrigar o adversário a revisar sua estratégia, redesenhando, com paciência e técnica, os contornos da guerra moderna.