Volínia reabre feridas e tensiona Polônia e Ucrânia: o legado do ataque da UPA há 83 anos
Recorrente tensão entre Polônia e Ucrânia pela memória de Volínia: a polêmica sobre a UPA, a bandeira vermelho-preta e o impacto diplomático 83 anos depois.
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Volínia reabre feridas e tensiona Polônia e Ucrânia: o legado do ataque da UPA há 83 anos
Volínia permanece, no calendário memorial, uma ferida que insiste em reabrir velhas contendas entre vizinhos. No dia 11 de julho de 1943 — a chamada "Domingo de Sangue" — o braço armado da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, a UPA, atacou dezenas de aldeias na região que hoje corresponde em grande parte ao oeste da Ucrânia. As estimativas polonesas apontam para a morte de dezenas de milhares de civis; autoridades e historiadores citam números que, segundo Varsóvia, ultrapassam os cem mil mortos entre 1943 e 1944 nas áreas da Volínia e da Galícia Oriental.
O episódio, ocorrido há 83 anos, voltou ao centro do palco diplomático nesta semana. Cerimônias de lembrança se multiplicaram pela Polônia, onde memoriais e liturgias recordaram as vítimas civis, muitas delas mulheres e crianças. Karol Nawrocki, presidente do Instituto de Memória Nacional, escolheu falar desde Radruz, uma das localidades atingidas, declarando não aceitar o esquecimento das supostas 120 mil vítimas polacas "brutalmente assassinadas por nacionalistas ucranianos".
Do centro simbólico de Radruz, Nawrocki apresentou uma iniciativa que promete inflamar ainda mais os ânimos: propôs a proibição da bandeira vermelho-preta associada à OUN e à UPA, hoje reutilizada por grupos ultranacionalistas e presente em alguns emblemas militares ucranianos contemporâneos. O chefe do instituto comparou o estandarte a símbolos do nazismo alemão — "como a bandeira ‘Blut und Boden’, Sangue e Solo" — e anunciou intenção de levar a proposta ao parlamento.
Há aqui uma tensão de memórias que joga as peças do tabuleiro histórico em direções opostas. Para a Polônia, os eventos de 1943 configuram um ato de violência massiva — para muitos autores, com contornos de genocídio. Para setores da Ucrânia, combatentes do passado, inclusive aqueles ligados à UPA, são lembrados como insurgentes contra ocupações sucessivas, uma narrativa que Moscou e outros atores externos procuram instrumentalizar.
O historiador Timothy Snyder, cuja obra sobre estas regiões é referência, advertiu que "deixar o outro incompreensível é abandonar a busca pela compreensão" — um risco palpável agora, quando as lembranças não convergem. E o presente agravou a discórdia: no mês passado, a administração de Volodymyr Zelensky deu nome de "heróis da UPA" a uma unidade de comandos ucraniana. A reação polonesa não se fez esperar: Nawrocki revogou a mais alta condecoração antes conferida ao presidente ucraniano, e autoridades ucranianas responderam devolvendo honrarias recebidas anteriormente de Varsóvia.
O rompimento estendeu-se ao campo político doméstico na Polônia. O partido Lei e Justiça (PiS) anunciou uma resolução parlamentar contra a presença do símbolo vermelho-preto nos contextos oficiais e exigiu medidas duras. No terreno diplomático, o gesto reacendeu memórias de reconciliações anteriores: em 2023, numa tentativa de apaziguamento, líderes polonês e ucraniano haviam se reunido em Lutsk e pronunciado palavras de perdão mútuo — uma fórmula que agora parece ter perdido ímpeto.
Como analista, vejo este episódio como um movimento decisivo no tabuleiro da memória e da política externa: as peças não são apenas simbólicas, são alicerces da diplomacia e da confiança entre Estados. Proibir um estandarte ou reclassificar episódios históricos não apaga a realidade das vítimas; pode, no curto prazo, reforçar narrativas vitais para políticas internas. No médio prazo, porém, o reiterado choque das memórias corre o risco de redesenhar fronteiras invisíveis na relação entre Polônia e Ucrânia, numa tectônica de poder onde o passado dita os contornos do presente.
A estabilidade regional exige que atores — acadêmicos, líderes políticos e instituições de memória — retornem à construção de uma cartografia comum dos fatos. Sem compreender o outro, não há movimento de reconciliação possível; há apenas a repetição das peças, movidas pelas mesmas mãos e pelos mesmos receios. Nesse xadrez histórico, a prudência e a erudição são, mais que nunca, peças de resistência.