Geleiras da Grande Guerra recuam: Forni perde 400 metros em 8 anos e espessura equivale a um prédio de 20 andares
Geleiras do Stelvio encolhem: Forni recuou 400 m em 8 anos; espessura perdida equivale a prédio de 20 andares. O que isso diz sobre o degelo.
RESUMO ✦
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Geleiras da Grande Guerra recuam: Forni perde 400 metros em 8 anos e espessura equivale a um prédio de 20 andares
Por Aurora Bellini — No coração do Parco Nazionale dello Stelvio, onde as rugas da história se misturam ao sopro atual do clima, as antigas linhas brancas que ajudaram a desenhar a memória da Grande Guerra estão encolhendo com uma rapidez que ilumina, com severidade, o desafio do nosso tempo.
Ao longo dos últimos oito anos o glaciar dos Forni recuou cerca de 400 metros. Em termos de massa vertical, a perda equivale ao volume de um edifício de 20 andares. Esse número — bruto, quase arquitetônico — traduz em imagem o que os mapas já não conseguem esconder: o degelo em curso.

A expedição da Espresso Italia percorreu os trilhos antigos da chamada 'guerra branca', observando como a Val Cedec se transformou. O corredor que antes era dominado por gelo permanente hoje se apresenta como um vale verde que leva até o Rifugio Forni — antigo Capanna Buzzi — e às encostas do maciço do Gran Zebrù e do Cevedale. Era nesse cenário que, um século atrás, os alpini se deslocavam com esquis e trenós, até transportando peças de artilharia por trilhas agora suavizadas pela vegetação.
Os sinais da história permanecem inscritos na rocha: na crista do Cima Solda, a cruz que marca o cume repousa sobre estruturas que remetem aos mecanismos de tiro da época bélica. Hoje, pequenos montículos de neve e manchas residuais lembram o passado gelado, mas não devolvem a extensão nem o volume que já cobriu essas montanhas.
Durante uma visita recente, depois de dois dias de precipitação que ofereceram um manto branco passageiro acima dos 3.000 metros, ficou claro que o alento frio é efêmero. Em dias quentes, a Caravana da Legambiente observa perdas de até 10 centímetros por dia em pontos sensíveis do glaciar — uma cifra que revela a potência do aquecimento quando o termômetro sobe.
O Cevedale aparenta estar, em algumas vertentes, mais protegido: a cobertura branca ainda conserva maiores extensões no lado que despenca em direção ao Alto Adige. Mas essa resistência é relativa. O mapa do tempo e as tendências de longo prazo indicam que o fenômeno é amplo e persistente, resultado de uma conjugação entre verões mais quentes, alteração do balanço de massa dos glaciares e, em última instância, da mudança climática provocada por ações humanas.
Ver essas frentes encolher é experimentar uma perda dupla: a ambiental, pelo desaparecimento de reservas hídricas e paisagens glaciais; e a cultural, pela erosão de lugares que carregam memórias vivas de comunidades e histórias como as da Grande Guerra. Mas há também um chamado: cada recuo nos convida a cultivar respostas — políticas, científicas e comunitárias — que preservem água, biodiversidade e legado.
A Espresso Italia seguirá na trilha desses territórios para iluminar caminhos de adaptação e mitigação, mostrando como técnicas de conservação, vigilância científica e decisões públicas podem semear soluções reais. Porque entender o recuo das geleiras é também preparar um horizonte límpido para as próximas gerações.
Fotografia e relato de campo: Aurora Bellini / Espresso Italia

