Retiro dos glaciares pode aumentar risco de doenças entre abelhas domésticas e selvagens, mostra estudo
Estudo nas Alpes mostra que o retiro dos glaciares pode aumentar a troca de patógenos entre abelhas domésticas e selvagens, alterando redes de polinização.
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Retiro dos glaciares pode aumentar risco de doenças entre abelhas domésticas e selvagens, mostra estudo
O retiro dos glaciares não altera apenas montanhas e rios: ele redesenha as teias da vida e pode acender novos riscos para a saúde dos polinizadores. Uma pesquisa da Universidade Statale di Milano, realizada na área do Mont Miné, no Cantão de Valais (Alpes suíços), revela que as transformações dos paisagens proglaciais — das áreas recém-libertadas do gelo até ambientes já mais maduros — influenciam as interações entre abelhas domésticas e selvagens e podem facilitar a circulação de patógenos entre elas.
O estudo, publicado na revista Oikos e desenvolvido em parceria com a Libera Università di Bolzano, o Centro de Pesquisa Agricultura e Ambiente do CREA (Bologna) e a Universidade de Lausanne, usou o recorte temporal e espacial deixado pelo recuo do glaciar como um verdadeiro laboratório natural. As zonas sucessivas ao derretimento oferecem estágios distintos de sucessão vegetal — desde comunidades pioneiras esparsas até campos floridos mais antigos e mesmo trechos com floresta — permitindo comparar como muda a exposição e a transmissão de agentes infecciosos.
Os pesquisadores, conduzidos por Carlo Polidori e Gianalberto Losapio, investigaram cinco agentes patogênicos em abelhas-das-vinhas (Apis mellifera) e em várias espécies de abelhas selvagens: três vírus, um microsporídio e um protozoário. O resultado traz nuances importantes. Todos os patógenos foram detectados nas abelhas domésticas, enquanto apenas dois foram encontrados nas abelhas selvagens. Para um dos vírus, os cientistas identificaram ainda cepas distintas entre os dois grupos de polinizadores.
Uma possível explicação, segundo a equipe, está no comportamento alimentar das colônias manejadas: as abelhas domésticas tendem a explorar um número menor de espécies florais, muitas vezes plantas menos frequentadas por abelhas selvagens. Esse padrão reduz as oportunidades de contato indireto por flores compartilhadas, limitando — ao menos em parte — a transmissão viral entre comunidades de polinizadores.
No entanto, o estudo também mostra que um dos vírus aumentou sua presença nas áreas mais maduras do ambiente proglacial, onde a vegetação já teve tempo de se desenvolver. Esse achado sinaliza um alerta: conforme a paisagem se estrutura e a diversidade floral cresce, aumentam-se as ocasiões de encontro entre abelhas domésticas e selvagens, potencialmente favorecendo a difusão de doenças.
Em termos práticos, a pesquisa ilumina caminhos para ação. Monitoramento contínuo em zonas de degelo, práticas de apicultura que reduzam sobreposição de recursos florais e estratégias de conservação da biodiversidade são medidas que podem mitigar riscos. É um convite para semear políticas e gestos que protejam o tecido vivo dos ecossistemas polinizadores.
Como curadora de histórias que buscam impacto, vejo neste trabalho uma mensagem clara: o derretimento glacial é um fator ecológico ainda pouco explorado, mas de grande relevância para a saúde dos ecossistemas e para os serviços que deles dependemos. Precisamos ampliar a luz sobre esses processos, unir ciência, práticas agrícolas e políticas públicas para cultivar um futuro em que a convivência entre natureza e atividade humana preserve tanto a diversidade quanto a resiliência das espécies que nos ajudam a florescer.

