Fentanil: a nova fronteira do narcotráfico na Europa, alerta do criminólogo Vincenzo Musacchio
O criminólogo Vincenzo Musacchio alerta: o fentanil já é uma ameaça real na Europa e exige resposta coordenada da UE.
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Fentanil: a nova fronteira do narcotráfico na Europa, alerta do criminólogo Vincenzo Musacchio
Apuramos, por meio de cruzamento de fontes e entrevista direta, com o professor Vincenzo Musacchio, docente em estratégias de combate à criminalidade organizada e associado ao Rutgers Institute on Anti-Corruption Studies (Rutgers University, Newark, EUA), o quadro atual sobre o avanço do fentanil no mercado ilegal e a articulação das organizações criminosas que o estão promovendo.
Giulliano Martini: Professor, nos Estados Unidos o termo muitas vezes usado é "tragédia". Na Europa e, especificamente, na Itália, estamos diante de uma ameaça concreta ou de um alarme prematuro?
Vincenzo Musacchio: Sou taxativo ao afirmar que há uma ameaça real. Nos EUA, o fentanil já provocou milhares de óbitos por overdose. O erro estratégico maior, aqui na Europa, seria subestimar esse fenômeno como algo exclusivamente transatlântico. Organizações como a ’ndrangheta não aguardam a formação de um mercado: elas o antecipam. Os sinais de infiltração — incluindo apreensões significativas em portos e aeroportos europeus — indicam que as redes de distribuição estão em fase de teste. Em linguagem de campo: testemunhamos uma metamorfose química do narcotráfico em curso, e a União Europeia precisa urgentemente se preparar.
GM: Por que as máfias optariam por uma substância tão letal quanto o fentanil, em vez de mercados consolidados e lucrativos como o da cocaína?
VM: A lógica é pragmática: custo, logística e retorno. As organizações criminosas operam hoje com racionalidade de corporação — com gestores financeiros e químicos. Produzir cocaína ou heroína exige controle territorial em regiões produtoras, laços com cultivadores e rotas marítimas longas e vulneráveis. O fentanil elimina esses fatores. Sendo de síntese, dispensa plantações; é fabricado em pequenos laboratórios clandestinos, com precursors químicos que podem ser legais ou fácil de camuflar. A quantidade necessária para lucros massivos é diminuta: centenas de gramas de princípio ativo equivalem a toneladas de outros entorpecentes quando transformadas em pílulas ou misturas. Menor volume significa transporte e ocultamento mais simples, além de risco reduzido de apreensão.
GM: Qual o papel dos cartéis internacionais e como as organizações italianas se inserem nessa cadeia?
VM: Estamos diante de uma cadeia transnacional funcional. Os precursors químicos têm origem, em grande parte, na China e em outros países asiáticos com lacunas regulatórias. Desses pontos, cargas seguem para cartéis mexicanos — como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nueva Generación — que aperfeiçoaram a síntese industrial do produto final. As máfias italianas, com a ’ndrangheta na linha de frente devido à sua posição histórica no tráfico global, atuam como brokers logísticos e financeiros: gerenciam importação, divisão de mercados e redes de distribuição no atacado e no varejo europeu.
GM: Quais medidas pragmáticas o Estado e a UE devem adotar?
VM: Recomendo um pacote articulado: intensificação do monitoramento e controle dos precursors na cadeia logística global; cooperação policial e de inteligência entre países da UE e com parceiros extraeuropeus; formação técnica para detectar laboratórios sintéticos urbanos; operações de interdição em portos e armazéns; e políticas de redução de danos para minimizar mortes enquanto se combate a oferta. A resposta não pode ser apenas repressiva nem apenas sanitária; tem de ser coordenada.
O diagnóstico é claro: não se trata de uma hipótese distante. Pelo contrário, a evidência aponta para uma transição logística e química do narcotráfico que já alcança a Europa. A apuração in loco e o raio-x do cotidiano das apreensões indicam que o período de teste das redes pode rapidamente evoluir para uma presença consolidada, a menos que medidas coordenadas sejam adotadas com urgência.
Reportagem: Giulliano Martini. Entrevista e verificação de dados: Vincenzo Musacchio, Rutgers Institute on Anti-Corruption Studies.