Multinacional do crime: Como a criminalidade transnacional ameaça a segurança dos Estados e as economias legais
Criminalidade transnacional atua como 'multinacional do crime', ameaçando segurança estatal e economias legais; especialista pede cooperação internacional.
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Multinacional do crime: Como a criminalidade transnacional ameaça a segurança dos Estados e as economias legais
Em discurso diante do Parlamento Latino-americano e Caribenho, órgão chave que reúne Estados da região para enfrentar a criminalidade transnacional, o criminólogo italiano Vincenzo Musacchio enfatizou a necessidade de coordenação policial e judicial, fortalecimento dos marcos jurídicos internos e expansão da cooperação internacional. Segundo o especialista, é urgente combater fenômenos como a criminalidade organizada transnacional, o narcotráfico internacional, o tráfico de armas e o tráfico de pessoas e órgãos.
Musacchio traçou um diagnóstico preciso: a criminalidade organizada deixou de ser apenas um problema penal estrito e passou a operar como uma verdadeira multinacional do crime, com capacidade de afetar a segurança internacional dos Estados. As análises científicas apresentadas ao Parlamento apontam para grupos criminosos que incidem diretamente sobre equilíbrios econômicos, financeiros, políticos e institucionais, apresentando uma pervasividade que os aproxima de atores geopolíticos estruturados.
Não foi por acaso que, diante de representantes de toda a América Latina, Musacchio advertiu que a criminalidade organizada transnacional constitui hoje uma ameaça global capaz de desestabilizar Estados e comprometer economias legais. A seguir, trechos da entrevista concedida ao nosso veículo sobre o tema.
Pergunta: Professor Musacchio, como as máfias mudaram em relação ao passado?
Resposta: Há muito tempo utilizo o conceito de "novas máfias" para descrever a transformação genética dessas organizações em atores transnacionais. Essa mutação alterou tanto o sujeito quanto o objeto da ameaça global. As organizações criminosas contemporâneas operam por meio de redes intercontinentais, gerindo fluxos ilícitos com lógica multinacional e alto grau de coordenação. O narcotráfico internacional figura como o principal motor de poder e acumulação econômico-financeira, gerando fluxos que minam a estabilidade dos Estados.
Conforme Musacchio ressaltou durante a audiência, o tráfico de drogas — tanto de substâncias naturais quanto sintéticas — é o paradigma mais evidente da globalização do crime organizado. A cadeia de produção, distribuição e lavagem de dinheiro não é apenas um mercado paralelo: é uma infraestrutura transnacional que consegue influenciar decisões estatais e dinâmicas econômicas formais.
Pergunta: De que forma essas "novas máfias" impactam a segurança dos Estados?
Resposta: O impacto na segurança nacional é multifacetado. A principal brecha utilizada pelas organizações criminosas é a infiltração nos circuitos econômicos legais, alterando dinâmicas de mercado e assumindo posições estratégicas em setores-chave. A corrupção funciona como instrumento facilitador dessa penetração, permitindo o controle discreto de ativos, decisões e contratos públicos. Essa estratégia cria riscos sistêmicos: distorce concorrências, drena recursos públicos e compromete a resiliência institucional.
Além da infiltração econômica, a capacidade logística e tecnológica desses grupos amplia seu alcance: redes financeiras paralelas, empresas de fachada e rotas comerciais legítimas são cooptadas para dar cobertura a operações ilícitas. O resultado é a formação de vetores de poder que operam em áreas onde tradicionalmente se esperaria a supremacia do Estado.
Na avaliação do entrevistado, o combate eficaz exige medidas combinadas: aprimoramento das legislações nacionais, alinhamento de normas processuais entre países, intercâmbio operacional entre polícias e magistraturas, e mecanismos robustos de transparência e controle financeiro. Musacchio destacou também a importância da formação especializada e do cruzamento de inteligência financeira e criminal para desarticular essas redes.
Ao fim da sessão, o recado foi técnico e direto: a realidade do crime organizado transnacional impõe uma revisão das estratégias estatais. Não se trata apenas de prender indivíduos, mas de desmantelar estruturas empresariais criminosas que se instalaram no interior das economias legais. A apuração in loco e o cruzamento de fontes confirmam que, sem coordenação internacional e instrumentos jurídicos atualizados, a multinacional do crime continuará a operar como fator de desestabilização e risco sistêmico.