UE e Austrália selam acordo: 99% dos direitos aduaneiros eliminados e novo eixo estratégico

UE e Austrália fecham acordo: elimina 99% dos direitos aduaneiros, amplia comércio e firma parceria de segurança e inovação.

UE e Austrália selam acordo: 99% dos direitos aduaneiros eliminados e novo eixo estratégico

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UE e Austrália selam acordo: 99% dos direitos aduaneiros eliminados e novo eixo estratégico

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma discreta e calculada, parte do mapa das alianças comerciais, a União Europeia e a Austrália assinaram um acordo de livre comércio histórico. Após oito anos de negociações e um abrupto congelamento em 2023, a assinatura ocorreu em Canberra na noite italiana, durante a visita da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recebida pelo primeiro-ministro Anthony Albanese.

Este é um movimento decisivo no tabuleiro da economia global: o texto prevê a eliminação de mais de 99% dos direitos aduaneiros sobre bens exportados entre os dois polos, um alívio direto para as empresas europeias que, segundo estimativas, pouparão cerca de 1 bilhão de euros anuais em tarifas. A meta declarada da UE é ambiciosa — elevar as exportações para o mercado australiano em 33% na próxima década, alcançando cerca de 17,7 bilhões de euros por ano.

O acordo focaliza setores estratégicos — automotivo, químico e o setor lácteo —, mas o ponto de tensão que exigiu mais artifício diplomático foi a agricultura e os produtos alimentares tradicionais. Em particular, a controvérsia sobre denominações de origem foi resolvida de modo pragmático: produtores australianos de prosecco terão de abandonar o uso do nome para exportação, com um período de transição de dez anos para adaptação. Em contrapartida, a UE abriu concessões significativas para a carne australiana, com uma cota de aproximadamente 30.600 toneladas, das quais 55% entrarão sem tarifas.

O pacto, porém, não se limitou ao comércio de mercadorias. Von der Leyen e Albanese rubricaram um parceria de segurança e defesa que amplia a cooperação em segurança marítima, ciberproteção e no combate a ameaças híbridas e à manipulação da informação. Também abriu-se espaço para cooperação em tecnologias emergentes — incluindo a inteligência artificial — e para a ciência: foram iniciadas negociações para que a Austrália se torne membro associado do Horizon Europe, o principal programa europeu de financiamento à inovação.

O contexto geopolítico é parte integrante deste desenho. Em tempos de incertezas — agravadas pela guerra no Irã e pelas imprevisibilidades das políticas tarifárias americanas — a prioridade declarada dos dois parceiros é diversificar cadeias de abastecimento e reduzir a dependência da China. O resultado é um redesenho de fronteiras invisíveis: um novo eixo de influência que busca alicerçar-se em autossuficiências mútuas e garantias de estabilidade.

Do ponto de vista estratégico, trata-se de um pacto que combina incentivos comerciais com segurança cooperativa — um tipo de arquitetura clássica aplicada à era digital e geopolítica. Como em uma partida de xadrez de alto nível, cada concessão foi calculada para maximizar espaço de manobra e minimizar riscos: a UE ganha acesso ampliado a recursos e mercados no Indo-Pacífico; a Austrália obtém plataformas tecnológicas e garantias políticas junto a um bloco econômico vital.

Resta agora observar como os alicerces práticos desse acordo serão implementados — quotas, períodos de transição e salvaguardas técnicas serão os pontos que definirão se esse movimento produzirá estabilidade duradoura ou apenas um reajuste temporário na tectônica de poder global.