Cacciari alerta: Governo empurra a filosofia para fora dos licei e 'embalsama' Kant
Cacciari e professores criticam corte da filosofia nos licei: Governo reduz Kant e transforma o pensamento crítico em conteúdo domesticado.
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Cacciari alerta: Governo empurra a filosofia para fora dos licei e 'embalsama' Kant
Por Giuseppe Borgo — Espresso Italia
Há algo de assustadoramente simbólico em um país onde, enquanto salários permanecem em níveis medievais e o transporte público deriva para o caos, o debate central do poder é como reduzir a presença da filosofia nas escolas. A última movimentação do governo transformou uma discussão curricular em um espetáculo: fora alguns nomes, dentro a versão domesticada do pensamento crítico.
A petição assinada por Cacciari e outros professores não é apenas um protesto técnico sobre programas; é um alarme sobre a visão de educação que está sendo construída pelos ministérios — uma educação com alicerces fragilizados, pensada para produzir cidadãos dóceis, não interlocutores críticos.
Na lista de filósofos que parecem cair em desuso estão Spinoza, Leibniz, Marx, Fichte e Schelling. Kant, curiosamente, seria deixado “vivo, porém embalado”: reduzido a uma mera "ideia de crítica", como se a sua obra fosse um slogan ou uma infusão leve para consumo rápido. Hobbes, Locke e Rousseau aparecem tratados como itens à escolha num supermercado do pensamento — uma espécie de rifinha pedagógica: escolha um, leve o pacote.
O problema, porém, não é só quem sai do programa. É a filosofia como prática do questionamento que é empurrada para fora da sala de aula. Quando o poder quer formar consenso sem contestação, ele desconstrói as ferramentas que permitem distinguir propaganda de realidade, autoridade de verdade. A tentativa de transformar a filosofia em conteúdo palatável e inofensivo — um "TikTok espiritual" — revela a intenção: produzir cidadãos treinados na recitação identitária em vez de leitores capazes de confrontar textos complexos e ideias dissonantes.
Enquanto países investem na formação do pensamento crítico para enfrentar a era da inteligência artificial, aqui se desenha um modelo que privilegia a obediência operacional: "obedeça e preencha formulários". A república do resumo pronto — muitas vezes gerado por ferramentas como ChatGPT — sem o estudo aprofundado dos textos que moldaram a modernidade política e moral, corre o risco de ver seus alicerces civis erodirem.
Como correspondente atento às intersecções entre decisões de Roma e a vida cotidiana de cidadãos e imigrantes, vejo nesta iniciativa uma ponte sendo derrubada entre escola e cidadania ativa. Tirar tempo e espaço de reflexão é também reduzir a capacidade de quem nasce, trabalha e reivindica direitos neste país de participar plenamente da arquitetura do voto e das instituições.
O debate levantado por Cacciari e colegas não deve ser subestimado como disputa acadêmica menor. É, antes, uma luta pela qualidade democrática: garantir que os licei continuem a formar mentes capazes de pensar, duvidar e responsabilizar o poder — afinal, a democracia se sustenta no peso da caneta, sim, mas também na firmeza do pensamento que a orienta.