Do cappio à mortadella: os protestos inusitados que invadiram o Parlamento

No Parlamento, do 'cappio' à 'mortadella': símbolos inusitados nas manifestações que traduzem frustrações políticas em imagens diretas.

Do cappio à mortadella: os protestos inusitados que invadiram o Parlamento

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Do cappio à mortadella: os protestos inusitados que invadiram o Parlamento

Em mais uma sessão tensa na Câmara dos Deputados, o clima político se materializou em objetos que falam mais do que palavras. O deputado do grupo 'Futuro Nazionale con Vannacci', Edoardo Ziello, durante o anúncio do voto contrário à resolução de maioria sobre as comunicazioni do ministro dell'Economia Giancarlo Giorgetti, exibiu um cappio. Colegas do mesmo grupo ergueram cartazes com a inscrição 'No Safe'.

“Nós nunca seremos cúmplices da venda da soberania económica e financeira do nosso país; vocês estão, de facto, colocando um perigoso cappio ao pescoço da Itália”, declarou Ziello em plenário. O gesto resgatou uma imagem que remonta a 1993, quando o leghista Luca Leoni Orsenigo já havia recorrido ao nó simbólico durante Tangentopoli — e que retorna agora, 33 anos depois, pelas mãos de um ex-leghista alinhado a Vannacci.

O cappio é certamente o mais inquietante dos símbolos recentes, mas não está sozinho no breve arsenal de manifestações insólitas que animaram as sessões de Câmara e Senado ao longo das legislaturas. A anedotária parlamentar, nesta perspectiva, constrói um roteiro vívido entre a crítica política e a encenação pública.

Em maio deste ano (2026), por exemplo, o deputado Roberto Giachetti amarrou a si próprio ao assento em Montecitorio com manette — um ato de protesto contra o impasse na Vigilanza Rai. Giachetti chegou a explicar, com ironia, que o objeto havia sido adquirido em um sexy shop por ser difícil de encontrar de outra forma, mesmo para um parlamentar.

Já no início de agosto de 2026, deputados do Movimento 5 Stelle exibiram uma minicassaforte em plenário como crítica direta ao conteúdo das conversas deixadas em áudio e chat relacionadas a Delmastro. Em outras ocasiões, Angelo Bonelli levou pedras do leito do rio Adige à tribuna para lembrar a todos o drama da emergência climática.

O repertório inclui ainda episódios mais folclóricos: em 24 de janeiro de 2008, o então senador de AN Nino Strano e o colega Domenico Gramazio celebraram, com mortadella e champanhe, a queda do segundo governo Prodi — uma referência provocadora às origens bolonesas do ex-primeiro-ministro. Chiara Appendino entrou em cena a 19 de novembro de 2025 com um despertador, dizendo que era hora de acordar o governo. Em 1º de abril de 2014, o falecido deputado leghista Gianluca Buonanno agitou uma spigola (robalo) em carne e osso antes de ser expulso por um protesto de Primeiro de Abril. E houve até uma aparição fantasmagórica em Montecitorio por Riccardo Magi, em maio de 2025, como crítica ao silêncio sobre os referendos.

Esses gestos são mais do que curiosidades: funcionam como sinais arquitetônicos nas paredes da democracia, peças que testam os alicerces da norma e a resposta das instituições. A repetição de símbolos — do nó à comida, da algema à pedra — revela também a tentativa constante de virar a linguagem política em algo que chegue ao cidadão comum, derrubando barreiras burocráticas e traduzindo frustrações em imagens diretas.

Como correspondente que observa a intersecção entre decisões de Roma e a vida dos cidadãos, registro que esses objetos são termômetros de uma relação pública cada vez mais performática. Em tempos em que o peso da caneta determina orçamentos e direitos, os deputados recorrem a itens palpáveis para construir pontes entre a política formal e o sentimento popular.

Giuseppe Borgo - Espresso Italia