Competir ou desaparecer: análise crítica do novo livro de Mario Draghi e o peso da competitividade
Análise crítica do novo livro de Mario Draghi: a competitividade como resposta e o impacto sobre trabalhadores, soberania e políticas públicas.
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Competir ou desaparecer: análise crítica do novo livro de Mario Draghi e o peso da competitividade
Por Giuseppe Borgo - Espresso Italia
Sai agora nas livrarias o livro do homem conhecido como o ungido pelos mercados, Mario Draghi. O título, Competere o sparire — traduzível por Competir ou desaparecer — já indica o eixo interpretativo: a competitividade como imperativo categórico. Como repórter atento à intersecção entre decisões de Roma e vida cotidiana dos cidadãos, vejo nesse enunciado um novo capítulo da larga narrativa neoliberal que vem moldando políticas públicas desde a consolidação do projeto europeu.
O verbo competere ocupa hoje lugar de destaque no vocabulário das élites europeias: não é casual que o termo reverbere nas diretrizes da União Europeia e nos manuais de política econômica. Para quem vem das instituições financeiras e das catedrais do capitalismo — caminhos que marcaram a trajetória de Draghi entre Goldman Sachs e o Banco Central Europeu (BCE) —, a solução passa invariavelmente pela liberalização, pelo ajuste salarial e pela compressão dos custos del lavoro. Em outras palavras, a receita é aumentar a pressão concorrencial para manter mercados e investidores satisfeitos.
Nesta leitura, a competitividade não se apresenta como uma opção política legítima, mas como uma necessidade inescapável: «ou competimos, ou desaparecemos». Essa construção retórica transforma escolhas de classe em verdades de sistema — um clássico mecanismo de governança baseado na emergência. Apresenta-se uma via estreita, quase única, e assim se legitima a redução da soberania nacional e o aperto sobre os salários e as condições de vida dos trabalhadores.
É importante recordar um dado biográfico que ilumina as contradições do percurso de Draghi: sua tese de doutorado, orientada por Federico Caffè, originalmente criticava a hipótese de uma moeda única europeia. Aquilo que, na juventude, era apontado como potencialmente danoso, mais tarde foi defendido com vigor — culminando no célebre compromisso retórico de salvar o euro «whatever it takes». A viragem evidencia o peso das escolhas institucionais e do “peso da caneta”: quando se trata de resgatar a moeda, a prioridade deixa de ser proteger trabalhadores e famílias e passa a ser salvaguardar a estabilidade financeira.
Para além das biografias e dos lemas, é preciso medir o impacto real dessas ideias sobre a cidadania: políticas centradas na competitividade frequentemente implicam cortes e reformas que corroem alicerces sociais — dos salários aos serviços públicos. A metáfora da construção é útil aqui: se as decisões políticas retiram tijolo a tijolo dos alicerces sociais em nome da eficiência de mercado, a estrutura inteira da convivência civil fica mais frágil.
O livro de Draghi se insere, portanto, numa arquitetura discursiva já conhecida, mas que convém examinar com cuidado. Em vez de aceitar o dilema imposto como inevitável, cabe discutir alternativas que não acabem por transformar a política em mera administração dos interesses financeiros. A proposta de cooperação e desenvolvimento controlado, como defendido por outros modelos econômicos — incluindo alguns que combinam regulação estatal e mercado — permanece uma via política e técnica plausível, ainda que pouco enfatizada nas liturgias neoliberais.
Como jornalista e cidadão, meu papel é servir de ponte entre a sala onde se redigem as políticas e as ruas onde se vive o seu efeito. Ler o novo livro de Mario Draghi é, portanto, mais do que folhear páginas: é abrir uma janela para entender quais alicerces se pretende fortalecer e quais populações podem ficar excluídas dessa construção. E lembrar que, no final, o debate não é abstrato: pesa sobre empregos, direitos e a soberania das comunidades.
Giuseppe Borgo