Itália tem lei avançada para cuidados paliativos, mas aplicação desigual entre Regiões prejudica pacientes

Lei 38/2010 garante cuidados paliativos na Itália, mas aplicação desigual entre Regiões deixa pacientes sem acesso; entenda o que falta.

Itália tem lei avançada para cuidados paliativos, mas aplicação desigual entre Regiões prejudica pacientes

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Itália tem lei avançada para cuidados paliativos, mas aplicação desigual entre Regiões prejudica pacientes

“Palliativo” vem do latim “mantello”. Como um manto, as cures palliative envolvem e protegem o paciente da dor, buscando preservar a qualidade de vida mesmo quando a cura não é possível. É com esse princípio que Francesca Crippa Floriani apresenta a história e o trabalho da Fondazione Floriani ETS, que neste mês completa cinquenta anos.

A fundação nasceu da experiência pessoal de Virgilio Floriani, um engenheiro e empresário das telecomunicações, quando em 1976 perdeu o irmão para um osteossarcoma e constatou a ausência quase total de acompanhamento e de cuidado contra a dor. Junto à esposa Loredana Carbone e ao Dr. Vittorio Ventafridda — primeiro diretor científico — criou-se uma instituição filantrópica, laica e sem fins lucrativos que acabou por inspirar parte da legislação atual.

Em cinco décadas, a Fondazione Floriani atendeu mais de 100 mil pessoas em Milão, em municípios vizinhos e em províncias da Lombardia, apoiando mais de 15 Unidades de Cuidado e hoje sustentando economicamente e operacionalmente 4 Unidades de Cure Palliative Domiciliares, serviços hospitalares e 2 hospice.

Na prática, o que são esses cuidados? As cures palliative são um modelo multidisciplinar centrado na pessoa, voltado para melhorar a qualidade de vida quando a doença não é mais curável. Isso inclui câncer metastático e doenças crônicas avançadas. O foco é o controle da dor e dos sintomas, o apoio emocional, a escuta e a coordenação entre profissionais para que o paciente e a família possam atravessar a doença com dignidade, respeitando valores e decisões individuais.

Esses cuidados são prestados a domicílio, por equipes especializadas; em hospice, que funcionam como unidades clínicas acolhedoras; e em ambulatórios quando o paciente ainda pode se deslocar. A integração com os hospitais é fundamental — trata-se de erguer alicerces no sistema de saúde para que o cuidado acompanhe o percurso do doente, sem rupturas.

O avanço farmacológico, inclusive na terapêutica com opióides, transformou a prática clínica: hoje a farmacologia permite controle efetivo da dor que antes era impensável. Ainda assim, até recentemente médicos e equipes enfrentavam estigmas e barreiras burocráticas no acesso a medicamentos essenciais.

No plano jurídico, a discussão lembra o papel decisivo de iniciativas políticas como as da então ministra da Saúde Rosy Bindi, que contribuíram para consolidar normas nacionais sobre cuidados paliativos e terapia da dor — culminando na estrutura normativa conhecida como Lei 38/2010 — que reconhece o direito ao controle da dor e ao acesso a redes de cuidados.

O problema atual não é a ausência de lei, mas a sua aplicação desigual: há uma arquitetura normativa robusta, mas a execução permanece fragmentada por Regiões. Algumas implementaram redes domiciliares, hospices e formação profissional; outras ainda têm lacunas importantes em serviços, financiamento e monitoramento. Esse descompasso cria verdadeiras ilhas de cuidado e deixa pacientes e famílias vulneráveis dependendo do território em que vivem.

As soluções passam por medidas concretas: fiscalizar e exigir planos regionais alinhados à Lei 38/2010, garantir financiamento estável para unidades de cuidados paliativos, investir em formação multiprofissional, integrar cuidados paliativos nos hospitais e derrubar barreiras burocráticas ao acesso a medicamentos analgésicos. Em outras palavras, é preciso construir pontes entre as normas de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, consolidando os alicerces da lei para que o direito se transforme em prática efetiva.

Como repórter atento à interseção entre as decisões de Roma e o impacto nas comunidades, acompanho a trajetória da Fondazione Floriani e a demanda por uma aplicação homogênea das políticas de cuidados paliativos: não bastam leis bem desenhadas se faltam os meios para executá-las nas regiões. O desafio é técnico, político e moral — e exige que o peso da caneta se converta em serviços reais, acessíveis a todos.