Meloni 'democristiana' abriu caminho para o pior do fascismo; Vannacci pode ser o nosso carrasco
Giorgia Meloni, ao assumir tom democristão, abriu espaço para o extremismo; Vannacci e Furgiuele simbolizam o retorno do pior fascismo.
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Meloni 'democristiana' abriu caminho para o pior do fascismo; Vannacci pode ser o nosso carrasco
Terça-feira, 16 de junho de 2026
Por Giuseppe Borgo
A recente kermesse do Futuro Nazionale em Roma foi, sem rodeios, um desfile de amenidades, populismo e um fascismo sem vergonha. Como repórter que acompanha a arquitetura política de Roma e sua repercussão na vida dos cidadãos, vejo nisso mais do que um evento: vejo o afrouxar dos alicerces que deveriam barrar as formas mais graves de intolerância.
Permitam-me um relato pessoal para decifrar o quadro. Meu bisavô foi um socialista de primeira hora que, por caminhos complexos da história, acabou por aderir a Mussolini e tornar-se um Signore delle Milizie. Ainda assim, deixou um gesto de resistência simbólica: escreveu ao que chamava "companheiro" Benito uma carta com um claro não às leis raciais e à aliança com Hitler. Demitiu-se do partido; não aceitava os squadristi nem as prepotências dos subordinados. Em casa contavam que ele dizia: «O fascismo é Mussolini, não uma ideologia. Mussolini quis pôr fim ao caos da partitocrazia para aplicar nossas ideias. Continuamos socialistas, mas a história isso esquecerá».
Para mim, que reivindico a herança dos valores socialistas de cidadania, esse bisavô é um herói. Por isso me repugna ver figuras como Vannacci — com seu símbolo em X — e o tal do deputado Furgiuele, que trata a plateia por "camerati", emergirem na cena pública com naturalidade. Eles representam o fascismo que meu bisavô combateu: o fascismo vulgar, exultante, que se instala nas ruas e nas palavras antes de se cristalizar nas instituições.
Tudo isso, acredito, é fruto de uma virada que tem nome e sobrenome. Devemos responsabilizar, em larga medida, a senhora que hoje é tratada quase como a herdeira da velha Democracia Cristã: Giorgia Meloni. Ao assumir um perfil mais democristiano, ela acabou por desobstruir — ou melhor, abrir uma ponte — pelo qual ideias e práticas autoritárias reencontraram espaço político e social.
Não se trata de um ataque retórico; é uma observação sobre consequências concretas. Quando o centro-direita se apresenta com um verniz de estabilidade conservadora, sem enfrentar claramente suas correntes mais extremas, cria-se um mecanismo que normaliza o extremismo. É a construção de uma arquitetura política que, com o tempo, permite a ascensão de figuras que podem se tornar carrascos das liberdades civis.
Como cidadão e repórter, sinto o peso da caneta e a responsabilidade de apontar essa fragilidade. Derrubar barreiras burocráticas é necessário, mas não podemos derrubar as barreiras éticas que protegem os direitos fundamentais. É preciso que a sociedade civil e as forças democráticas reconstrua os alicerces — com transparência e firmeza — para evitar que um passado de violência volte a ditar o presente.
Se um dia tiver de enfrentar, com outros italianos, a onda do que chamo de "vannaccismo", não será por acaso. Será o resultado de escolhas políticas que, agora, se mostram permissivas. E a quem ergueu essa ponte entre a "respeitabilidade" e o extremismo, cabe perguntar: qual será o preço que os cidadãos pagarão?
O papel do jornalismo é esse: ser ponte entre quem decide em Roma e quem vive as consequências na rua. E, como tal, não custa lembrar: nem toda estabilidade declarada é proteção — às vezes é apenas o verniz que esconde um perigo.