Novo plano pandêmico até 2029: emergência permanente ou nova arquitetura de governo?

Governo aprova plano pandêmico até 2029; emergência se apresenta como método de governo e arma do neoliberalismo contra direitos civis.

Novo plano pandêmico até 2029: emergência permanente ou nova arquitetura de governo?

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Novo plano pandêmico até 2029: emergência permanente ou nova arquitetura de governo?

Roma — O governo aprovou um novo plano pandêmico que permanecerá em vigor até 2029. Entre as medidas previstas estão instrumentos já conhecidos dos anos 2020, como o trabalho remoto e o uso generalizado de máscaras. Para o cidadão comum, porém, a notícia não é apenas técnica: revela uma forma de governança que transforma a emergência em rotina.

Já adverti, em meu livro Golpe globale, sobre o contínuo vai e vem entre fases de restrição e allentamento — um verdadeiro movimento de Yo-Yo que impede o retorno a uma normalidade estável. Essa dinâmica não é acidente. A história recente mostra que o que chamamos de crise pode ser incorporado como método de administração pública e econômica. Quando o tempo excepcional se torna padrão, há um deslocamento dos alicerces da democracia: direitos e procedimentos normais são suspensos em nome da segurança.

Filósofos e analistas como Giorgio Agamben já descreviam essa tendência: o liberalismo contemporâneo tem aprendido a governar por meio da emergência. A emergência, longe de ser um elemento perturbador de um sistema estável, passa a constituir parte de sua arquitetura. O resultado é um paradigma biosecuritário que continuamente negocia liberdade por segurança.

Como bem ensinou Spinoza, o medo é uma paixão que torna as pessoas mais dóceis às ordens vindas do alto. Em situações de risco percebido, a sociedade aceita medidas que, em tempos ordinários, pareceriam inaceitáveis. O mecanismo é simples: produzir ou evidenciar ameaças — sejam elas sanitárias, climáticas ou financeiras — e apresentar, em seguida, soluções que consolidam poderes e limitam garantias. É uma obra de construção política onde cada decreto funciona como um novo tijolo na muralha do poder.

Para os trabalhadores, imigrantes e comunidades ítalo-descendentes, as consequências são práticas e imediatas. O trabalho remoto pode preservar empregos, mas desloca a fiscalização e altera relações contratuais; a normalização do uso de equipamentos de proteção e de controles sanitários amplia a vigilância sobre os corpos. Essas medidas, se não acompanhadas por garantias legais e sociais, corroem direitos e aprofundam desigualdades.

É necessário denunciar a engenharia política por trás desse método. O sistema capitalista — quando orientado por lógicas neoliberais — não vive apenas de mercados: ele se nutre também da gestão contínua de crises, utilizando-as para reorganizar privilégios e consolidar poder econômico e administrativo. O projeto é, em última instância, uma ofensiva de classe que se vale do peso da caneta para redefinir prioridades públicas.

O desafio democrático é, portanto, duplo: primeiro, recuperar mecanismos de transparência e participação que impeçam a suspensão prolongada de direitos; segundo, reconstruir uma ponte entre decisões de Roma e as necessidades concretas das pessoas. Não basta criticar a técnica das medidas — é preciso apresentar alternativas que protejam a saúde sem sacrificar liberdades fundamentais.

Enquanto tramamos essa resposta coletiva, cabe ao cidadão vigilante, ao jornalista responsável e ao legislador comprometido manter firme o compromisso de checar o poder. Derrubar barreiras burocráticas que impedem o acesso à informação e erguer alicerces sólidos de proteção social são passos essenciais para que a emergência não se transforme numa desculpa perene para erosão de direitos.

Como ponte entre o público e o aparelho estatal, devemos exigir: clareza sobre a duração, critérios e revisões do plano; salvaguardas democráticas explícitas; e medidas sociais que não deixem as camadas mais vulneráveis à margem. Sem isso, a normalização da exceção continuará a moldar a vida cotidiana — e a arquitetura do voto será construída sem os cidadãos no canteiro.