Polêmica do 'patentino antifascista' em feira literária: Nordio lembra que o Código Penal foi assinado por Mussolini

Debate sobre o 'patentino antifascista' na feira Più Libri Più Liberi; Nordio lembra que o Código Penal foi assinado por Mussolini.

Polêmica do 'patentino antifascista' em feira literária: Nordio lembra que o Código Penal foi assinado por Mussolini

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Polêmica do 'patentino antifascista' em feira literária: Nordio lembra que o Código Penal foi assinado por Mussolini

Por Giuseppe Borgo — A proposta de um patentino antifascista para participar da feira editorial Più Libri Più Liberi reacende um debate que atravessa a arquitetura da vida pública italiana: liberdade de expressão versus requisitos de adesão aos princípios constitucionais.

Os organizadores do evento, que acontece tradicionalmente em dezembro na Nuvola dell'Eur, solicitaram que editoras e participantes assinem uma declaração de compromisso com princípios democráticos e constitucionais. A iniciativa foi descrita pela imprensa como um patentino antifascista e provocou respostas imediatas no cenário político.

O ministro da Justiça, Carlo Nordio, entrou no tema com afirmações que visam colocar a questão num contexto histórico e legal mais abrangente: "Talvez os organizadores não saibam que o livro mais importante para a nossa justiça, ou seja, o Código Penal, traz a assinatura de Mussolini". Nordio aludiu ao conhecido código Rocco, elaborado sob a direção de Alfredo Rocco, ministro da Justiça durante o regime, promulgado com o Regio Decreto de 19 de outubro de 1930 (n. 1398) e em vigor desde 1º de julho de 1931, assinado pelo rei Vittorio Emanuele III, por Benito Mussolini e por Rocco.

"É um verdadeiro paradoxo exigir atestados de antifascismo de quem não quer mudar um código assinado por Mussolini", acrescentou o ministro, colocando o dedo sobre uma contradição percebida por parte de setores que exigem conformidade ideológica sem tocar nos alicerces legais herdados do passado.

A primeira-ministra Giorgia Meloni também pronunciou-se contra a medida, descrevendo-a nas redes sociais como um mecanismo de censura: segundo Meloni, condicionar a presença editorial a uma declaração equivaleria a estabelecer limites à liberdade de pensamento e leitura, reduzindo o pluralismo de ideias. "A censura é incompatível com qualquer sociedade democrática", afirmou a premiê.

Do outro lado, a AIE (Associazione Italiana Editori) e os próprios organizadores rejeitaram a acusação de censura. A associação afirmou que a exigência visa esclarecer e unir os atores presentes na feira, sendo baseada em referências institucionais e isenta de coloração partidária. Os organizadores, por sua vez, manifestaram rammarico pelo debate público gerado e anunciaram que farão um aprofundamento institucional sobre a questão.

Como repórter que observa a relação entre decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, vejo nesta disputa uma necessidade de reconstruir pontes: é preciso pesar o valor simbólico de um gesto — o pedido de um compromisso explícito com os princípios constitucionais — com o impacto prático sobre a liberdade editorial. A discussão revela a fragilidade dos alicerces sobre os quais se ergue a confiança pública: derrubar barreiras burocráticas e construir direitos exige transparência, não pressa retórica.

Enquanto o debate esquenta, permanece a pergunta central para editores, leitores e legisladores: é possível exigir uma declaração de princípios sem transformar a praça pública num espaço de conformidade? A resposta exigirá diálogo institucional e medidas que respeitem tanto a memória histórica — inclusive dos textos legais herdados — quanto a pluralidade que sustenta a democracia.