Vannacci e o debate sobre o termo "feminicídio": como a linguagem desloca a luta de classes

Análise crítica sobre a controvérsia causada por Vannacci e o uso do termo feminicídio, conectando linguagem, ideologia e luta de classes.

Vannacci e o debate sobre o termo "feminicídio": como a linguagem desloca a luta de classes

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Vannacci e o debate sobre o termo "feminicídio": como a linguagem desloca a luta de classes

Giuseppe Borgo — Em 15 de junho de 2026, o general Vannacci lançou uma declaração que reacendeu uma intensa controvérsia pública: "o feminicídio não existe". A frase provocou imediata reação e polarização. A análise que aqui apresento parte das observações de Diego Fusaro, traduzidas ao português e contextualizadas para leitores interessados na interseção entre decisões políticas e vida cotidiana.

O cerne do confronto não é apenas semântico. Ao questionar a legitimidade do termo, Vannacci — e autores que partilham a crítica — desafiam a narrativa dominante segundo a qual haveria uma categoria específica de crimes cuja natureza seria essencialmente ligada ao gênero do agressor. A crítica sustenta que a palavra feminicídio iria, em última instância, substituir o termo amplo homicídio por uma hierarquia de valores entre vidas e, assim, instituir uma leitura distorcida da violência.

Fusaro, cujo texto motivou este resumo, observa que a utilização do termo insere-se em uma ideologia dominante que procura redistribuir o foco social e político: em vez de apontar para o conflito principal — a luta de classes entre explorados e exploradores —, a retórica contemporânea deslocaria a tensão para um conflito horizontal entre gêneros. É, nas palavras do autor, um movimento que o capitalismo contemporâneo usaria para fragmentar a solidariedade social.

Essa abordagem, segundo a análise, traz duas consequências problemáticas. A primeira é a representação dos homens como perpetradores universais e das mulheres como vítimas universalizadas, o que ignora evidências de casos em que mulheres matam homens e a diversidade de situações sociais que precedem um crime. A segunda consequência é a tendência a naturalizar uma separação entre vidas — como se a morte de uma mulher fosse intrinsecamente mais grave que a de um homem — e a transformar a narrativa pública em uma disputa simbólica que pode ofuscar fatores concretos: pobreza, precariedade, violência estrutural e falhas nos serviços sociais.

Outra observação pertinente é histórica e sociológica: em diversas sociedades reais, mulheres de classes abastadas detiveram e detêm poder significativo, enquanto homens de classes subalternas permanecem vulneráveis. A disputa, portanto, não se resolve com uma simples dicotomia de sexos; exige-se um olhar que considere classe, posição econômica e redes de poder.

Não se trata de negar a existência de crimes motivados por ódio ao gênero ou por dinâmica de dominação; trata-se, sim, de questionar se a rotulação exclusiva como feminicídio resolve ou mascara as raízes materiais da violência. Como repórter com o dever de construir pontes entre o poder e a sociedade, proponho que o debate público coloque na base dos alicerces da lei e da política a investigação das causas sociais e institucionais da violência, sem perder de vista a proteção das vítimas.

Por fim, cabe ressaltar um ponto prático: criticar o termo não significa endossar todas as posições do general Vannacci. A discordância sobre seu liberalismo e atlanticismo mantém-se; contudo, quando aponta incoerências de uma narrativa hegemônica, a crítica merece ser discutida com seriedade, não apenas com condenação acrítica. A construção de direitos exige clareza conceitual e políticas públicas que ataquem tanto o ato violento quanto suas raízes estruturais.

Giuseppe Borgo — Espresso Italia. Rigor Acessível na cobertura das decisões de Roma que tocam a vida dos cidadãos.