Clara Maffei: a contessa do Risorgimento ganha nova leitura entre Bergamo e Milão

Exposição sobre Clara Maffei em Bergamo e Milão revela cartas, redes intelectuais e legado social da contessa do Risorgimento. Até 24/05.

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Clara Maffei: a contessa do Risorgimento ganha nova leitura entre Bergamo e Milão

Por Giulliano Martini — Apuração in loco, cruzamento de fontes e fatos brutos: a figura de Clara Maffei (1814-1886) volta a ser reexaminada em exposições e encontros que articulam Bergamo e Milano. Inaugurada em 12 de março na Biblioteca Angelo Mai, a mostra intitulada «I primi anni e il tempo per ben imparare» focaliza a infância e a formação da contessa, fases decisivas para entender sua atuação cultural e política no período do Risorgimento.

A exposição, instalada no átrio da Civica, integra um programa mais amplo — duas mostras e um calendário denso de eventos até 24 de maio — promovido pelo Comitato Clara Maffei em parceria com os municípios de Bergamo e Milan e com Casa Manzoni. Em Milão, a programação se estende ao Museo del Risorgimento, a Casa Manzoni e ao Cimitero Monumentale, onde a contessa está sepultada e onde existe um monumento funerário que o Comitê pretende restaurar.

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O percurso expositivo na Biblioteca Angelo Mai recupera documentos, cartas, livros e objetos que esclarecem tanto a vida privada quanto as redes intelectuais que gravitaram em torno do seu salão milanês. Nascida em Bergamo e com alternância de residência entre Milano e Clusone, onde passava os verões, Clara viveu entre o casamento com o poeta trentino Andrea Maffei e o relacionamento com Carlo Tenca. Do acervo emergem laços com algumas das figuras mais influentes do século XIX italiano: Giovanni Verga chamou-a de «una delle sue amiche più devote», enquanto Giuseppe Verdi aparece como testemunha na sentença de separação do casamento com o poeta.

O material mostra ainda a relação com escritores e patriotas como Tommaso Grossi, Alessandro Manzoni, Giulio Carcano, Massimo D'Azeglio e Carlo Cattaneo. Entre as mulheres, sobressai a presença de Neera e da mazziniana Giulietta Pezzi, cuja influência político-cultural merece investigação aprofundada.

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Uma das peças de destaque é o quadro de Francesco Hayez, Valeria Gradenigo davanti agli inquisitori, cedido pela Fondazione Cariplo e agora exposto em Milão, que ajuda a situar as trocas estéticas e simbólicas do meio que frequentava a contessa. O legado material de Clara também teve desdobramentos sociais: do seu testamento nasceu, em 1887, o asilo infantil de Clusone, fruto de um lascito que permanece como vestígio concreto de sua ação pública.

Do ponto de vista institucional, o assessor de Cultura de Bergamo, Sergio Gandi, define Clara Maffei como «una figura anticonformista, libera ed emancipata», lembrando seu papel cultural e a atuação política durante as Cinque Giornate. Em vídeo, o assessor de Cultura de Milão, Tommaso Sacchi, sublinha que se trata de um projeto corale nascido de novos estudos e de releituras documentais. Claudio Rota, do Comitê Maffei, cita descobertas recentes — entre elas a existência de um irmão primogênito, Eugenio — que adicionam camadas ao perfil já complexo da figura.

O conjunto de iniciativas em Bergamo e Milão não apenas recupera memórias, mas também propõe uma leitura crítica: a trajetória de Clara Maffei traduz a interseção entre sociabilidade cultural e militância política no século XIX italiano. A exposição na Biblioteca Angelo Mai e os eventos correlatos oferecem uma oportunidade para reavaliar o papel dos salotti como espaços de formação de consenso e circulação de ideias que anteciparam e acompanharam o processo do Risorgimento.

Para investigadores, interessados e público em geral, a mostra permanece aberta até 24 de maio, com atividades públicas que prometem aprofundar tanto as relações pessoais quanto os impactos institucionais deixados por uma das figuras femininas mais complexas do século XIX italiano.

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