Bertoglio, descobridor do Hantavirus Andes: 'Vacina inútil, medo irracional e exageros sobre lockdown e máscaras'
Juan Bertoglio, descobridor do Hantavirus Andes, pede calma: vacina inútil e medo irracional; entenda risco, ecologia e prevenção.
RESUMO ✦
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Bertoglio, descobridor do Hantavirus Andes: 'Vacina inútil, medo irracional e exageros sobre lockdown e máscaras'
Por Alessandro Vittorio Romano — «É como um vaso de flores que cai do balcão e te acerta na cabeça: o risco de morrer existe, mas as chances são muito, muito baixas». Assim começa o relato do dr. Juan Bertoglio, imunologista da Universidad Austral de Valdivia, que há mais de quatro décadas identificou a cepa andina do Hantavirus. Em entrevista, ele pede calma diante da recente quarentena de um navio de cruzeiro e dos oito casos confirmados que reacenderam alarmes internacionais.
Quem conhece o vírus tão de perto quanto Bertoglio tem uma visão que mistura experiência clínica e respeito pela natureza: a letalidade da variante Andes é alta, mas a transmissibilidade é baixa — uma combinação que exige prudência, não pânico. "O quadro é grave quando ocorre, mas são necessárias muitas variáveis para que a infecção aconteça", afirma. Na recente operação do navio, três dos oito contaminados morreram, um índice próximo dos 40% apontados historicamente nos surtos, mas não significa que o risco coletivo seja descontrolado.
Bertoglio recorda o primeiro caso que o levou a estudar esses vírus: uma família de um funcionário de serviços florestais. "A mulher morreu, o marido sobreviveu. Daquele episódio começamos uma longa jornada de pesquisa", diz. Desde então, seu grupo criou dois ramos de investigação: um caminho diagnóstico para identificar quem é imune e quem não é, e o desenvolvimento de um que ele chama de "vacina natural" — trabalhos reconhecidos pelas autoridades de saúde do Chile e da Argentina.
Por isso, segundo ele, não há razão para histeria. "Nosso laboratório detecta claramente quem tem imunidade. Entre Chile e Argentina lidamos com cerca de 70 a 80 casos por ano e sabemos administrar esses episódios", explica. Ao mesmo tempo, Bertoglio não hesita em criticar o que considera um excesso midiático: falar em lockdown ou na obrigatoriedade de máscaras por conta desses surtos é, para ele, uma "loucura" e uma resposta desproporcional.
Do ponto de vista ecológico, o pesquisador destaca um fator crucial para entender por que o vírus tem aparecido com mais frequência: o desmatamento e a alteração de habitats naturais. A introdução de plantações de coníferas para produção de celulose alterou o equilíbrio, forçando roedores a se aproximarem de áreas habitadas. "Mudamos a paisagem e, com isso, alteramos o ritmo dos vetores. O resto é consequência", observa Bertoglio — lembrando que a solução passa por repensar práticas ambientais tanto quanto responder em saúde.
É importante traduzir essas observações para o cotidiano: resistir ao medo é também cuidar do tempo interno do corpo e da respiração da cidade. Em vez de medidas draconianas, obras de vigilância, diagnóstico rápido e campanhas locais de prevenção costumam ser mais eficazes. "A probabilidade de infecção é baixa; a gravidade é alta quando ocorre. Essa é a chave", resume o cientista.
Fecho esta nota com a imagem de Bertoglio, homem que encontrou o vírus sob o dossel da floresta e passou a dedicar sua vida a entender as relações entre ecossistema e saúde. Em tempos de notícias rápidas e sensações amplificadas, sua mensagem soa como um convite sereno: olhemos para os rios das causas, trabalhemos as raízes do bem-estar e deixemos o pânico de lado.
Alessandro Vittorio Romano — Observador da relação entre clima, saúde e estilo de vida; Espresso Italia.