Distúrbios alimentares avançam entre crianças: 10% têm menos de 14 anos e redes sociais ampliam o risco
Redes sociais impulsionam distúrbios alimentares: 10% dos casos em menores de 14 anos; autolesionismo e acesso a apps preocupam especialistas.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Distúrbios alimentares avançam entre crianças: 10% têm menos de 14 anos e redes sociais ampliam o risco
Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma Itália que respira cultura e rotinas, cresce uma inquietação silenciosa: os distúrbios alimentares avançam sobre idades cada vez menores. Relatos clínicos e estudos recentes mostram que cerca de 10% dos casos se manifestam em crianças com menos de 14 anos, enquanto, entre os pacientes, aproximadamente 30% são menores. São números que cortam como o vento frio de uma manhã de inverno, trazendo à tona a urgência de olhar para as raízes deste mal.
A psiquiatra e psicoterapeuta Laura Dalla Ragione destaca, na ocasião da jornada mundial de sensibilização, que os social media são hoje “um potentíssimo fator de difusão”. Se antes o jovem encontrava sites e blogs relativamente fáceis de identificar, hoje os canais multiplicaram-se: apps de contagem calórica, ferramentas que monitoram gasto energético e feeds que reeditam padrões estéticos tornam-se trilhas invisíveis que levam à comparação constante e à queda da autoestima.
“Os estudos mostram que o uso problemático das redes está associado à diminuição da autoestima e ao aumento de sintomas depressivos, à interiorização do ideal de magreza e ao monitoramento obsessivo do próprio corpo”, explica Dalla Ragione. A passagem do tempo online parece, portanto, sincronizar-se com o surgimento e a intensificação dos transtornos.
Outro sinal de alarme é o crescimento do autolesionismo dentro do quadro dos transtornos alimentares: presente em cerca de 60% dos casos, revela uma dor que não se limita à relação com a comida, mas se estende ao corpo como palco de sofrimento. E não é somente uma questão feminina: o número de homens adolescentes vem subindo — hoje eles representam perto de 20% dos pacientes entre 12 e 17 anos —, mostrando que o teatro do corpo também é um cenário de angústia para os rapazes.
Entre 2020 e 2021, os acessos às estruturas de tratamento territoriais e hospitalares por parte de jovens aumentaram quatro vezes. O isolamento do lockdown agiu como uma luz que revelou sofrimentos antes mais velados, principalmente entre os meninos.
Infelizmente, a ausência de um olhar cuidadoso desde a primeira infância facilita a naturalização de ideias perigosas: nenhuma criança nasce pensando que seu corpo é errado, mas a mensagem de que “gordura é má” pode ser ensinada desde os 3-5 anos, através de um panorama cultural que exalta padrões distorcidos — inclusive na indústria dos brinquedos e do entretenimento.
Hoje, com modelos estéticos filtrados e até recriados por inteligência artificial, os sinais para os pais tornam-se mais difíceis de perceber. Por isso, a recomendação dos especialistas é clara: pais e cuidadores precisam reaprender a escuta, a observar sem julgar e a resgatar uma relação saudável com a comida e com o corpo — uma verdadeira prevenção que nasce do afeto e da rotina.
Na prática cotidiana, isso significa abrir espaço para conversas honestas sobre redes sociais, ensinar crianças e adolescentes a decodificar imagens e mensagens, limitar o tempo de tela quando necessário e oferecer modelos diversos de beleza e bem-estar. A cidade tem seu próprio ritmo e, como quem caminha por uma praça ao entardecer, é preciso perceber os sinais sutis antes que se tornem tempestade.
O panorama é complexo e exige respostas integradas: serviços de saúde mental acessíveis, formação para professores e famílias, políticas públicas que regulem conteúdos prejudiciais e iniciativas que promovam autoestima desde cedo. Em outras palavras, é preciso cultivar uma paisagem de cuidado onde a infância possa florescer sem as ervas daninhas do juízo corporal.
Enquanto observamos essa mudança de estação na saúde mental das novas gerações, fica o convite a agir com ternura e firmeza. Não se trata apenas de tratar sintomas, mas de recuperar a respiração da comunidade — para que cada criança e adolescente reencontre um ritmo que lhes permita crescer em paz.