Ebola e a burocracia do fim do mundo: simulações, biolaboratórios militares e a emergência como modo de governo
Entre simulações e biolaboratórios, como a emergência virou modo de governo e o que falta para prevenir crises globais sem drama.
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Ebola e a burocracia do fim do mundo: simulações, biolaboratórios militares e a emergência como modo de governo
Ebola chegou às manchetes logo após o Hantavirus. Duas crises de saúde em menos de um mês. A cadência é a mesma: troca-se o nome do agente, mantém-se intacta a liturgia do medo. Pode ser coincidência epidemiológica, claro. Mas a sensação que permanece é a de um mundo que, como quem prepara a colheita, ensaia a catástrofe pouco antes de ela acontecer.
Em 18 de outubro de 2019, poucos meses antes do alastramento global da Covid‑19, foi realizado em Nova York o exercício conhecido como Event 201, organizado pelo Johns Hopkins Center for Health Security, pelo World Economic Forum e pela Bill & Melinda Gates Foundation. O enredo? Um coronavírus transmitido de morcegos para humanos, propagação assintomática, paralisia do comércio internacional, crise económica e o colapso de sistemas de saúde. Uma coincidência narrativa tão precisa que, se tivesse sido escrita para uma série de TV, teria sido considerada exagero.
Como escreveu Friedrich Dürrenmatt, “quanto mais planejados são os homens, mais eficazmente os surpreende o acaso”. E ainda assim continuamos a ensaiar — com mapas, protocolos e planilhas — o próximo grande colapso biológico, sem nos perguntarmos com a mesma intensidade sobre os lugares onde agentes patogênicos letais são produzidos, conservados e manipulados.
Mas a questão não é apenas definir se essas simulações são previsão, planejamento ou prudência estratégica. O ponto mais angustiante é outro: a civilização contemporânea revela-se cada vez menos capaz de pensar fora do regime de emergência. A administração global parece ter encontrado na catástrofe uma rotina governamental.
Nos dias 22 e 23 de abril de 2026, a OMS organizou a manobra global Polaris II, envolvendo 26 países, 25 parceiros internacionais e centenas de especialistas em protocolos, comunicações, cadeias decisórias e estruturas de resposta. O exercício testou rotas, mensagens e hierarquias. Mais uma prova de que as instituições de governança transnacional passam grande parte do tempo ensaiando desastres em vez de tratar as raízes das crises.
O vocabulário oficial repete termos como resiliência, coordenação e governança multilaterale. É uma linguagem que transforma um colapso biológico planetário em questão de formulários e procedimentos, como se a burocracia pudesse embrulhar a calamidade em um regulamento. A administração contemporânea tem um talento singular: discorrer sobre o fim do mundo com a leveza de quem aprova uma ata de condomínio.
E, mais alarmante que as conferências e os exercícios, é a existência e a expansão dos laboratórios biológicos militares de altíssima biossegurança. Sobre isso, o silêncio internacional é espesso. Não se trata apenas de medo: é sobre o estado de coisas que permite a multiplicação de ambientes nos quais agentes perigosos são manipulados com fins que nem sempre são transparentes ao público. A tensão entre necessidade de pesquisa e riscos de contenção é um fio que atravessa a tapeçaria da segurança global.
Observar esse cenário é, para mim, como caminhar por um campo antes da chuva: há o cheiro da terra pronta, as nuvens acertando contas com o vento, e a dúvida entre proteger a plantação ou mudar o cultivo. Nos acostumamos às manuais de emergência como se fossem receitas de cozinha; esquecemos que a prevenção verdadeira — reduzir desigualdades, fortalecer sistemas locais de saúde, fiscalizar laboratórios e transparência — é outra espécie de colheita, mais lenta e menos dramática, porém mais eficaz.
Não proponho pânico nem negacionismo. Proponho atenção — sensível e prática — ao modo como a emergência virou dispositivo de governo. Exigir clareza sobre os biolaboratórios, debater prioridades de investimento em saúde pública e resgatar o cuidado cotidiano são atitudes que transformam a respiração da cidade, o tempo interno do corpo e a confiança coletiva. Enquanto ensaiamos o apocalipse em salas climatizadas, seria sábio recuperar o gesto simples de cuidar das raízes do bem‑estar: políticas que previnam, infraestrutura que ampare, e uma cultura pública que não troque a vigilância pela ansiedade.
Se a natureza das crises é cíclica, nossa resposta também pode aprender com os ciclos: plantar medidas firmes hoje para colher resiliência amanhã, em vez de viver sempre em estado de ensaio para o desastre.
Alessandro Vittorio Romano, para Espresso Italia