Fumo é questão social: até 80% dos mais vulneráveis são impactados, aponta relatório do RCP

Relatório do Royal College of Physicians 2026: o fumo é questão social e atinge até 80% dos vulneráveis; foco em saúde mental e populações invisíveis.

Fumo é questão social: até 80% dos mais vulneráveis são impactados, aponta relatório do RCP

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Fumo é questão social: até 80% dos mais vulneráveis são impactados, aponta relatório do RCP

Por Alessandro Vittorio Romano - Espresso Italia

O fumo já não pode ser tratado apenas como questão de escolha individual: é um fenômeno profundamente enraizado nas desigualdades sociais. É essa a mensagem contundente do relatório 2026 do Royal College of Physicians (RCP), Smoking, Health and Social Justice, divulgado em torno da Giornata Mondiale senza tabacco — o Dia Mundial sem Tabaco, 31 de maio.

Como quem observa uma paisagem que muda com as estações, o documento revela padrões claros: o tabagismo concentra-se entre quem já vive em solo pobre e árido de oportunidades. No Reino Unido, com base em 173 mil entrevistas, o relatório mostra taxas de fumo que escalam conforme cresce a vulnerabilidade social. Trabalhadores manuais apresentam prevalência de 20,2% (comparável aos 25,8% registrados na Itália). Entre desempregados, o índice atinge 20% no Reino Unido — e entre 38% e 40% na Itália.

O verde das colinas se torna mais opaco quando se fala de saúde mental: pessoas com alguma condição mental chegam a 40,5% de prevalência de tabagismo, mas o dado mais alarmante é que, entre portadores de transtornos mentais graves, esse número salta para 80% no Reino Unido e chega a 88% na Itália. É como se o fumo fosse uma chama que gruda nas sombras das dores psíquicas, tornando mais difícil enxergar rotas de saída.

O relatório chama atenção também para populações «invisíveis»: comunidades que não aparecem nas estatísticas oficiais, mas onde o fumo se alastra como erva daninha. Estima-se que quase 2 milhões de pessoas no Reino Unido integrem esse grupo oculto, com taxas entre 58% e 66%.

Outro mapa preocupante é o das prisões: antes das proibições de cigarros nos presídios britânicos, a prevalência se aproximava de 80%; na Itália, relatos apontam para uma prevalência virtualmente universal em determinados contextos carcerários. A interseção entre privação, exclusão e dependência mostra-se clara.

O RCP, com dados e convicção, redefine o tabagismo como problema de justiça social. Não se trata apenas de reduzir o número de fumantes, mas de compreender que políticas de controle do tabaco precisam caminhar lado a lado com intervenções sociais: acesso a serviços de saúde mental, suporte econômico, inclusão laboral e programas que alcancem os «invisíveis».

Como guia sensível aos ritmos humanos, eu vejo nisso uma lição: o combate ao fumo é também uma colheita de hábitos, que exige cuidar das raízes — da dignidade, do trabalho, do cuidado mental — para que brotem, ao longo das estações, caminhos reais de cessação.

O relatório do RCP não entrega respostas fáceis, mas ilumina onde agir. Ao tratar o tabagismo como questão de justiça, abrimos espaço para políticas que não apenas sopram a fumaça por cima do problema, mas cultivam solo fértil para a saúde coletiva.