Descoberto hormônio que antecipa recidivas da anorexia nervosa: o papel do LEAP2

Pesquisa revela que o hormônio LEAP2, produzido por fígado e intestino, pode prever recidivas da anorexia nervosa após tratamento.

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Descoberto hormônio que antecipa recidivas da anorexia nervosa: o papel do LEAP2

Por Alessandro Vittorio Romano — Uma descoberta que aproxima o ritmo do corpo ao compasso da mente: um hormônio produzido pelo fígado e pelo intestino, chamado LEAP2, pode ser um dos elos entre metabolismo e cérebro na anoressia nervosa, e ajudar a prever o risco de recidiva após o tratamento. A pesquisa foi apresentada no congresso FENS Forum 2026 por Virginie Tolle, do INSERM e do Institute of Psychiatry and Neuroscience de Paris.

O estudo acompanhou 30 mulheres entre 18 e 60 anos internadas na Clinique des Maladies Mentales et de l'Encèphale do hospital Sainte-Anne, em Paris. Amostras de sangue foram colhidas antes do início do tratamento, após quatro meses de recuperação nutricional e novamente seis meses após a alta. Questionários detalhados sobre comportamento e controle de impulsos também fizeram parte da avaliação.

Os pesquisadores observaram que, no momento da internação, os níveis de LEAP2 eram cerca de 20% superiores aos registrados após quatro meses de tratamento. Esse aumento era especialmente pronunciado nas pacientes que, posteriormente, apresentaram recidiva. O mecanismo aparenta envolver a antagonização da grelina — o hormônio produzido pelo estômago responsável por estimular a fome — de modo que o excesso de LEAP2 poderia suprimir sinais normais de apetite e facilitar a manutenção prolongada de restrições alimentares.

Ao mesmo tempo, as análises dos questionários mostraram que pacientes que recuperaram peso e mantiveram melhor controle dos impulsos apresentavam uma relação mais baixa entre grelina e LEAP2, sobretudo entre aquelas que conseguiram manter o peso seis meses após o tratamento. Em outras palavras, o equilíbrio entre esses sinais metabólicos parece conversar com a capacidade psicológica de manter mudanças no comportamento alimentar — uma respiração lenta entre corpo e mente.

Os autores complementaram o estudo clínico com experimentos em modelos animais. Em camundongos submetidos a uma restrição alimentar de 50% por quinze dias, seguida de re-alimentação, níveis elevados de LEAP2 associaram-se a maior impulsividade e a dificuldades na regulação da glicemia. Esses achados reforçam a hipótese de que sinais metabólicos podem modular circuitos cerebrais ligados ao comportamento alimentar e à regulação emocional.

A anoressia nervosa é um transtorno complexo que atinge predominantemente jovens mulheres, caracterizado por restrição alimentar voluntária e, muitas vezes, hiperatividade física. A malnutrição pode tornar-se severa, e o transtorno tem a maior taxa de mortalidade entre as doenças psiquiátricas. Sem medicamentos comprovadamente eficazes, o tratamento recai sobre a recuperação nutricional e abordagens multidisciplinares, com recidivas que podem alcançar até 40% dos casos.

Esta pesquisa abre uma janela sensível: se o LEAP2 confirmar-se como biomarcador reprodutível, poderá orientar estratificações de risco e medidas preventivas mais personalizadas no pós-alta. Ainda assim, é preciso cautela — replicações e estudos maiores são necessários antes de traduzir esse sinal em protocolos clínicos.

Enquanto a ciência colhe sinais do corpo, aprendemos a escutar também o tempo interno do paciente — uma espécie de paisagem íntima onde metabolismo e mente respiram juntos. Identificar quem está mais vulnerável à recaída é um passo para que intervenções futuras ajudem a manter a estabilidade, como regar com atenção as raízes do bem-estar.