Medicina de precisão: novo dossiê da AIFA mostra impacto das terapias direcionadas no SSN

Dossiê da AIFA analisa como a medicina de precisão e terapias direcionadas impactam a prática clínica, idosos e a sustentabilidade do SSN.

Medicina de precisão: novo dossiê da AIFA mostra impacto das terapias direcionadas no SSN

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Medicina de precisão: novo dossiê da AIFA mostra impacto das terapias direcionadas no SSN

ROMA — A prática da saúde está a atravessar uma viragem tão suave quanto profunda: do modelo padronizado centrado no “paciente médio” caminhamos para uma abordagem que coloca a pessoa no centro, adaptando diagnósticos e tratamentos às características genéticas, clínicas e ambientais de cada indivíduo. Este é o coração da medicina de precisão, tema do mais recente dossiê da AIFA, que avalia o impacto dessa transformação na prática clínica e na sustentabilidade do Serviço Sanitario Nazionale (SSN).

Nas últimas duas décadas, avanços na genômica e nas tecnologias digitais deixaram explícito um limite da medicina tradicional: doentes com a mesma doença podem reagir de maneiras muito diferentes às mesmas terapias. Surge, então, a necessidade de um percurso terapêutico mais mirado, capaz de identificar o tratamento mais eficaz para cada indivíduo, evitando intervenções inúteis ou potencialmente nocivas.

Na clínica isso se traduz pelo uso de ferramentas inovadoras: a farmacogenômica e a genômica permitem analisar o DNA para detectar variantes que modulam a resposta aos fármacos; a transcriptômica, a proteômica e a metabolômica observam a atividade biológica dos sistemas celulares; a epigenética investiga as alterações ligadas ao ambiente e aos estilos de vida; e a bioinformática juntamente com a inteligência artificial integram grandes massas de dados para apoiar decisões médicas. Juntas, essas tecnologias ajudam a prever a resposta medicamentosa, identificar pacientes com risco de efeitos adversos e selecionar tratamentos ajustados às características moleculares da doença.

"A medicina de precisão não é um luxo para poucos, mas um direito para todos", destaca Robert Nisticò, presidente da AIFA. A frase ecoa como um princípio ético: tratar de modo mais eficaz é também evitar desperdícios — uma dupla colheita que beneficia paciente e sistema.

O tema ganha relevo particular na Itália, um dos países com maior longevidade no mundo. O envelhecimento populacional traz consigo o aumento das doenças crônicas e da chamada polimedicação. Conviver com múltiplas patologias implica tomar vários medicamentos, uma das grandes questões clínicas e sociais atuais: 68% dos maiores de 65 anos recebem prescrições de pelo menos cinco fármacos distintos, e 28,5% usam dez ou mais.

Essa realidade eleva exponencialmente o risco de interações medicamentosas, erros terapêuticos e reações adversas, mas também tem impacto social: reduz autonomia dos idosos, complica a vida dos cuidadores e gera custos diretos e indiretos para o SSN. Um perigo concreto é a chamada prescrição em cascata, quando um remédio é indicado para tratar um efeito adverso causado por outro, desencadeando um ciclo que custa saúde e recursos.

Integrar a medicina de precisão no percurso assistencial pode mitigar esses riscos: ao escolher tratamentos de acordo com perfis moleculares e respostas individuais, reduz-se a necessidade de terapias desnecessárias, preserva-se a qualidade de vida e protege-se a sustentabilidade do sistema. É, ao mesmo tempo, um gesto de cuidado e de responsabilidade coletiva.

Como observador sensível do cotidiano italiano, vejo essa transição como um ajuste fino no tempo interno do corpo social: não é apenas tecnologia, é uma mudança de ritmo. A cidade respira de outro modo quando a saúde é pensada em suas raízes, quando a «colheita de hábitos» e o mapa genético conversam. A medicina de precisão promete tornar o tratamento tão pessoal quanto o clima de uma manhã na Toscana — íntimo, calibrado e ao serviço do bem-estar.

O desafio agora é converter o potencial científico em prática equitativa: treinar profissionais, organizar fluxos de dados, garantir acesso e avaliar custos e benefícios para o SSN. Só assim essa promessa se tornará rotina, e o direito à saúde personalizada poderá brotar como uma estação mais generosa para todos.