Paralimpíadas de recordes podem virar motor de inclusão, diz especialista do Centro Nemo
Especialista do Centro Nemo destaca como as Paralimpíadas podem transformar o esporte em ferramenta de inclusão e recuperação social.
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Paralimpíadas de recordes podem virar motor de inclusão, diz especialista do Centro Nemo
Por Alessandro Vittorio Romano, para Espresso Italia
As recentes Paralimpíadas, com o notável desempenho dos atletas italianos, desenham mais do que um quadro de medalhas: apontam para uma possibilidade concreta de transformar o esporte em instrumento de inclusão, recuperação e redescoberta de papel social para quem vive com deficiência. Do meu observatório — que olha tanto para as estações da vida quanto para as pequenas rotinas que nutrem o bem-estar — essa é uma notícia que floresce como a promessa de uma primavera após um inverno longo.
Riccardo Zuccarino, diretor do Centro Nemo Trento, fisiatra e especialista em reabilitação neuromuscular, sintetiza bem esse movimento. À Espresso Italia Salute, ele ressaltou que o esporte pode ir além da condição clínica e devolver autonomia, confiança e participação social. Os números recentes dão corpo a essa narrativa: a Itália conquistou 7 ouos, 7 pratas e 2 bronzes — um total de 16 pódios — garantindo o quarto lugar no quadro de medalhas e superando o recorde de Lillehammer 1994, quando a delegação italiana obteve 13 medalhas.
Para Zuccarino, ver performances de altíssimo nível é vital porque muitas pessoas se reconhecem nesses momentos. "Os atletas paralímpicos, embora vivam com uma deficiência, são esportistas em tudo: enfrentam treinos, seleções e competições tão exigentes quanto quaisquer atletas normodotados". Essa afirmação nos convida a olhar para a pessoa antes da patologia, a ouvir o ritmo da cidade que pulsa através das conquistas individuais.
No entanto, há uma sombra que persiste: a menor repercussão mediática das Paralimpíadas em comparação com as Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina. Zuccarino aponta que não são as Paralimpíadas que devem ser vistas como evento de segunda classe — é a própria deficiência que, muitas vezes, é tratada assim. E isso revela uma dificuldade cultural maior: afirmamos ser inclusivos, mas, na prática, ainda hesitamos ao nos relacionar com a diferença.
Da clínica, o especialista registrou um efeito imediato: houve interesse e participação especialmente entre pessoas com doenças estabilizadas, que enxergam no esporte um caminho para retomar papéis e rotinas. Em contrapartida, quem está em fase aguda ou recebeu diagnóstico recente precisa de percursos de cuidado e apoio mais graduais — uma colheita que exige tempo, escuta e caminhos personalizados.
O que as Paralimpíadas deixam é uma lição suave e firme: quando o olhar público se desloca da limitação para a capacidade, o tecido social se enriquece. O evento poderia, e deveria, ser um catalisador de políticas e práticas que ampliem espaços adaptados, formação profissional e comunicação que valorize pessoas antes de rótulos. Em outras palavras, transformar a visibilidade esportiva em oportunidades reais de inclusão.
Como alguém que vê na respiração das cidades e nas estações do corpo os ritmos que moldam nossa qualidade de vida, acredito que a próxima estação pode ser de colheita: colheita de hábitos inclusivos, de políticas que acolham e de narrativas que celebrem o potencial humano. Se quisermos que a vitória nos pódios reverbere além do aplauso, é preciso que a sociedade reconheça, com a mesma intensidade, que a pessoa conta mais do que a sua doença.
Alessandro Vittorio Romano é autor e observador das interseções entre saúde, clima e estilo de vida para o Espresso Italia.


