Parem de se alegrar com as desgraças dos vacinados: a tragédia global está só no começo

Parem de celebrar as desgraças dos vacinados: relato sobre atletas, artistas e efeitos pós-vacina numa tragédia global que pede compaixão.

Parem de se alegrar com as desgraças dos vacinados: a tragédia global está só no começo

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Parem de se alegrar com as desgraças dos vacinados: a tragédia global está só no começo

Estou cansado, mortalmente cansado, e não é um cansaço qualquer — é um cansaço que tem o ritmo de uma cidade que não consegue mais respirar direito. Cansado daqueles novax mesquinhos que, ao ver alguém adoecer ou morrer, comemoram com um seco “teu merecido”. É uma crueldade que revela pouca humanidade e desvia a atenção do que, na verdade, deveria nos inquietar: que há pessoas adoecendo após doses de vacina e que isso merece investigação séria, não aplausos de plateia raivosa.

Observe a cena esportiva como um campo onde o tempo interno do corpo se mostra: Sinner perdeu o Roland Garros e, mais uma vez, o discurso público recorre às explicações padrão — calor, desgaste, rotina — como se seu adversário fosse um autômato. Mas quem acompanha sabe que as quedas, os desmaios, as convulsões e as indisposições que o acometeram nos últimos quatro anos são muitos; três apenas em 2026. Há um burburinho: não se pode admitir a explicação mais incômoda e então se inventam causas alternativas, variações do velho outono que fingimos não ver.

Se quisermos estender o mapa das preocupações, encontramos outros nomes italianos que parecem desfiar-se: Berrettini, Arnaldi — atletas que parecem quebrar-se em partidas que antes seriam triviais. E não é só na Itália: Medvedev confessou que muitas vezes precisava de analgésicos para entrar em quadra; e lá está o Djokovic, rotulado aqui como novax, que ainda se mantém competitivo aos 40 anos, quase um testemunho de outra temporada do corpo. O que essa constelação de casos nos diz, porém, é que há coisas que o público e a imprensa evitam nomear.

O mundo das doses massivas, especialmente quando se transforma em indústria de centenas de milhões, cria uma paisagem em que atletas recebem o melhor cuidado do planeta e, ainda assim, muitos perdem a firmeza. Os que não têm acesso a esses bastidores ficam à deriva, em cadeiras de rodas ou se arrastando como sombras do que foram — inclusive este narrador, que carrega marcas que não se apagam.

Também o universo artístico foi tocado: Claudio Baglioni interrompeu sua turnê, visivelmente envelhecido em um vídeo, dizendo ter combatido uma pneumonia intersticial que o deixou postergando shows. Baglioni fala do essencial, mas nem sempre conta tudo. Eu sei bem do que falo: tive a mesma pneumonia duas vezes, depois de duas doses e de uma batalha contra um câncer. A pneumonia intersticial é uma doença que toma longos meses de toxidez incessante; uma tosse que rouba o ar como ventos de inverno, epifanias de falta, desmaios repetidos. Uma vez, no meu sexagésimo aniversário, foi o smartwatch da minha mulher que registrou minha queda e acionou um socorro que me trouxe de volta.

Não escrevo para alimentar teorias de conspiração nem para inflamar rancores; escrevo como alguém que observa a respiração da cidade e sente que estamos colhendo hábitos sem medir as consequências. A imprensa muitas vezes prefere reduzir essas histórias a brigas entre novax e vacinistas — um espetáculo que esconde a raiz do problema. Celebrar a queda alheia é uma colheita amarga: alimenta-se de escárnio enquanto a comunidade perde a compostura e deixa de cuidar dos feridos.

Peço, portanto, um gesto simples de civilidade: deixemos de festejar as desgraças. Ao mesmo tempo, exijamos esclarecimento sério sobre eventos pós-vacinação, apoio médico decente para os afetados e respeito por quem sofre. A tragédia que descrevo é coletiva e ainda jovem; precisa ser tratada com seriedade, não com o ato frio de apontar dedos. Em tempos em que o corpo e a paisagem mudam a cada estação, nosso dever é ouvir com atenção os sinais — e agir com compaixão.