Por que o canibalismo desapareceu? Riscos biológicos e poucos benefícios energéticos

Estudo em PNAS explica por que o canibalismo desapareceu: baixo rendimento calórico e alto risco de transmissão de doenças, incluindo príons.

Por que o canibalismo desapareceu? Riscos biológicos e poucos benefícios energéticos

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Por que o canibalismo desapareceu? Riscos biológicos e poucos benefícios energéticos

Por Alessandro Vittorio Romano — O canibalismo não é apenas um tabu cultural profundo; é também uma escolha alimentar pouco vantajosa quando vista pela lente da biologia e da saúde pública. Dois pesquisadores europeus, Michal Misiak (Universidade de Breslávia) e Petr Turecek (Universidade Carolina de Praga), reuniram evidências e argumentam, em artigo publicado na revista Pnas, que os custos de se alimentar de membros da própria espécie superam os eventuais benefícios calóricos.

Para entender esse cenário, eles trataram o corpo humano como uma possível fonte de comida, avaliando de um lado o rendimento energético e, do outro, os custos biológicos e sociais. A conclusão é direta: o retorno calórico é modesto e os riscos de contágio são elevados. Em linguagem mais poética, poderíamos dizer que a "colheita de hábitos" do passado foi podada pela própria natureza: comer o semelhante abre portas a microrganismos que, dentro da mesma fisiologia, encontram o terreno mais fácil para se espalhar.

Do ponto de vista microbiano, a barreira do salto entre espécies — tão relevante quando um vírus passa de um animal para o homem — simplesmente deixa de existir quando a fonte é outro ser humano. Isso facilita a transmissão de infecções, incluindo agentes atípicos como os príons, responsáveis por doenças neurodegenerativas. O estudo destaca que esse fator epidemiológico foi provavelmente determinante para que o canibalismo fosse rejeitado em grande parte das sociedades humanas ao longo do tempo.

Além do risco infeccioso, os pesquisadores avaliam o ganho energético. O corpo humano, com predominância de pele, ossos e músculos pouco densos em gordura, não oferece uma reserva calórica comparável à de muitos animais de caça. Assim, em termos puramente nutricionais, a carne humana rende pouco: o investimento social, a logística e o perigo sanitário tornam a prática pouco eficiente para quem busca sobrevivência energética.

Historicamente, há evidências de episódios de canibalismo em várias épocas e lugares. O trabalho cita indícios entre populações do período magdalenenense — cerca de 15 mil anos atrás — e eventuais casos entre Neandertais, extintos entre 30 e 40 mil anos antes do presente. Na maior parte dos casos, porém, a prática parece associada a crises de extrema fome ou a rituais funerários e simbólicos.

Um exemplo bem documentado é o dos Fore, em Papua-Nova-Guiné, que consumiam parentes falecidos dentro de ritos funerários destinados a libertar o espírito do morto. Essa prática foi ligada à propagação do kuru, uma doença neurodegenerativa fatal caracterizada por tremores, perda de coordenação motora e declínio progressivo das funções neurológicas. O kuru é causado por príons e demonstra como a ingestão de tecido humano, especialmente neural, pode transformar crença ritual em desastre sanitário.

Para quem observa as paisagens culturais e biológicas — eu, que caminho entre a respiração das cidades e as estações que moldam nossos hábitos — a história do canibalismo lembra um padrão maior: práticas que, à primeira vista, parecem oferecer ganhos rápidos muitas vezes revelam custos ocultos, enraizados na nossa biologia. O tabu social não é apenas moral; é, em larga medida, uma forma de proteção coletiva, uma colheita preventiva contra riscos invisíveis.

Em suma, dizem Misiak e Turecek, a combinação de baixa densidade calórica do corpo humano e a facilidade de disseminação de agentes patogênicos — especialmente aqueles que não enfrentam barreiras de espécie — explica por que o canibalismo reapareceu em momentos distintos da história humana, mas foi prontamente abandonado: a conta evolutiva, aqui, não fecha.