Quando a performance do trabalho invade a família: como mudamos a forma de amar
Como a exigência de performance no trabalho redefine empatia, família e linguagem afetiva, segundo a antropóloga Cristina Berrettini.
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Quando a performance do trabalho invade a família: como mudamos a forma de amar
Por Alessandro Vittorio Romano — Observador do quotidiano, apaixonado pelos ritmos que ligam clima, corpo e relações.
Cristina Berrettini, antropóloga e consultora familiar que atua em Roma, parte de uma constatação que soa como vento frio na janela de casa: os valores do trabalho atravessam a soleira e alteram a maneira como nos relacionamos. Depois de tratar o desconforto juvenil e a crise de casal não como duas emergências separadas, ela nos guia por um território onde a exigência de performance profissional redesenha afetos e limites.
Berrettini retoma um estudo de 2016 feito com 261 gestores seniores que revelou algo perturbador: 21% apresentavam traços psicopáticos clinicamente significativos — baixa empatia, egocentrismo, propensão à mentira. O estudo, como ela reconhece, tem limites (amostra reduzida e setor específico), mas levanta uma pergunta inquietante: por que traços que a psicologia classifica como disfuncionais são, no mundo corporativo, selecionados e rebatizados como determinação, visão ou capacidade decisória?
A resposta que ela propõe não aponta o dedo para a pessoa, mas para o sistema. O que um contexto valoriza como recurso ou falha é onde produz lucro. Aquela mesma sensibilidade que, em casa, segura relações, no escritório pode ser rotulada de "demasiada empatia" — um defeito. É a mesma pessoa com duas leituras: uma que nutre vínculos, outra que supostamente atrapalha metas.
Arlie Hochschild, nos anos 1980, nomeou o esforço de gerir os próprios estados emocionais para atender às expectativas do trabalho como trabalho emocional. Antes visto em atividades de cuidado e serviço, hoje se tornou requisito não escrito de posições gerenciais. E como todo trabalho pesado, desgasta. O problema é que esse desgaste não fica apenas no crachá: vem para casa, invade a fala, o gesto, as prioridades.
Na prática, Berrettini descreve um padrão recorrente: pessoas que outrora eram sensíveis e ouvintes tornaram-se fluentes numa linguagem de sobrevivência profissional — um vocabulário que vai para o lar sem intenção maldosa, apenas por hábito. A frase que soa como um refrão em suas consultas é a italiana "ho impegni non negoziabili", traduzida: "tenho compromissos inegociáveis". É a linguagem do contrato aplicada à intimidade. Não é sempre um engano; muitas vezes é o único léxico disponível após anos de adaptação.
O efeito se estende às relações parentais: recursos e prioridades são gerenciados como projetos, confundir tarefas com afecto. Não se trata de vilania — mas de uma colheita de hábitos que cada dia empurra para dentro de casa. Berrettini lembra que a transformação não é inevitável: é possível cultivar outro ritmo, reconectar com a "respiração" da casa e reeducar o vocabulário emocional. Como numa paisagem que precisa ser observada para florescer, as raízes do bem-estar exigem práticas que não obedecem somente ao cronômetro do escritório.
Ao invés de buscar culpados individuais, propõe-se olhar o mapa das instituições que moldam nossas vozes. O desafio é reaprender a língua dos afetos — aquela capaz de medir não só eficiência, mas cuidado. Só assim, talvez, possamos permitir que a performance no trabalho seja uma estação da vida, e não o clima permanente que redefine como nos amamos.
Contato: Cristina Berrettini — antropóloga e consultora familiar (Roma). Referência de estudo: pesquisa de 2016 sobre gestores seniores (261 participantes).