Aquecimento global pode custar à Itália até 6% do PIB, alerta estudo europeu
Relatório do CMCC diz que o aquecimento global pode reduzir até 6% do PIB da Itália até meados do século, pressionando dívida e finanças públicas.
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Aquecimento global pode custar à Itália até 6% do PIB, alerta estudo europeu
Por Marco Severini — Um novo relatório do Centro Euro-Mediterrâneo sobre Mudanças Climáticas (CMCC), em colaboração com a Deloitte Climate & Sustainability e o European University Institute, desenha um cenário de risco estratégico para a economia italiana: o aquecimento global poderá reduzir até 6% do PIB da Itália até meados do século.
O trabalho, pioneiro na quantificação dos vínculos entre impactos climáticos e custos econômicos em nível nacional, revela que a exposição não é homogênea no continente. “As perdas não atingem a Europa de forma uniforme: as regiões meridionais e orientais estão mais expostas”, aponta o relatório, esclarecendo que, para a Itália, a trajetória de crescimento e a base fiscal mostram-se estruturalmente mais frágeis.
Na tessitura diplomática e fiscal desta análise, surge uma advertência clara: o risco climático é também um risco soberano. Segundo Massimo Tavoni, do CMCC e coautor do estudo, os impactos macroeconômicos se propagam às finanças públicas, agindo como fator de stress sobre uma vulnerabilidade económica e fiscal já existente. Em linguagem de cartografia financeira, eventos climáticos extremos remontam ao centro do tabuleiro, pressionando as linhas de financiamento do Estado.
Nos próximos 25 anos, ondas de calor, incêndios, precipitações extremas e inundações pesarão nos cofres públicos italianos. O efeito não será apenas uma dinâmica de crescimento mais fraca, mas também uma redução da base tributária e um relação dívida/PIB mais difícil de controlar. A combinação — perdas diretas, menor receita fiscal e maiores despesas de emergência — cria o que os autores descrevem como uma expansão do custo do endividamento: um potencial "spread climático" que eleva os juros e aperta a margem fiscal.
É reconhecido por vasta literatura que o custo da transição para uma economia de baixo carbono será elevado, mas consistentemente inferior aos gastos que a sociedade terá de suportar para reparar perdas e danos provocados pelo aquecimento. Estudos anteriores, como o da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH Zurich, 2024) e as avaliações da rede internacional de bancos centrais apresentadas na COP30 em Belém, corroboram esta tese: prevenir sai mais barato do que remediar.
Os eventos extremos já em curso — com ondas de calor desde o fim de maio no oeste europeu — ilustram a progressão desses riscos. A temperatura média global subiu, segundo a Organização Meteorológica Mundial, cerca de 1,4 graus em relação ao período pré-industrial. Se a marca de 2 graus — referencial do Acordo de Paris — for ultrapassada, a frequência e a severidade de ondas de calor, secas, tempestades e inundações, incluindo potenciais ciclones mediterrâneos, tenderão a se intensificar, elevando os custos econômicos e sociais.
Na voz institucional do CMCC, Carlo Carraro — reitor emérito da Universidade Ca' Foscari de Veneza e um dos fundadores do Centro — sublinha um aspecto frequentemente negligenciado: o impacto dos riscos climáticos sobre o relação dívida/PIB e, por consequência, sobre a percepção de risco do credor, que pressiona taxas de juros e provavelmente dará origem ao que alguns já chamam, em termos financeiros, de "spread climático". É uma mudança de nível no tabuleiro — uma tectônica de poder entre mercado, Estado e clima — que exige medidas estratégicas e antecipadas.
Como estrategista, a lição é cristalina: a Itália e seus parceiros europeus devem tratar o desafio climático como uma questão de soberania e estabilidade macroeconômica. Intervenções bem calibradas — mitigação, adaptação e instrumentos financeiros que protejam a base fiscal — funcionarão como alicerces para evitar um redesenho de fronteiras invisíveis no mapa da prosperidade nacional.