Desertificação na pauta: COP17 em Ulan Bator e o jogo estratégico pela restauração das terras

COP17 em Ulan Bator: restauração das terras é chave para evitar crise econômica, migração e insegurança em zonas vulneráveis.

Desertificação na pauta: COP17 em Ulan Bator e o jogo estratégico pela restauração das terras

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Desertificação na pauta: COP17 em Ulan Bator e o jogo estratégico pela restauração das terras

Abriu-se hoje em Ulan Bator, Mongólia, a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre a desertificação (Cop17), reunindo delegados de 197 países, além de representantes da sociedade civil, da comunidade científica, povos indígenas e agricultores. A UNCCD — Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação — define como meta elaborar respostas coordenadas para as múltiplas e interdependentes ameaças que o fenômeno impõe às terras e às sociedades.

É preciso dissociar o termo do imaginário reduzido às «dunas de areia». A desertificação é, antes, o processo de degradação das terras provocado por um conjunto de fatores, entre os quais se destacam as alterações climáticas — fruto das atividades antrópicas como a queima de carvão, petróleo e gás — e práticas humanas inadequadas. Ondas de calor, secas mais intensas e prolongadas contribuem para a perda de matéria orgânica do solo, para a redução da sua capacidade produtiva e, em última instância, para a erosão da estabilidade econômica local.

Segundo o IPCC no seu relatório especial de 2019, já cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em zonas áridas, que ocupam aproximadamente 46,2% da superfície terrestre. O relatório projeta que até 2050 até 700 milhões de pessoas podem ser forçadas a migrar em busca de solos capazes de garantir condições mínimas de subsistência. Os «hotspots» de desertificação acelerada — concentrados em 9,2% das zonas áridas — não estão confinados a um único continente: exemplos apontados incluem regiões do Chile e áreas da Espanha, como a Comunidade Valenciana, a Região de Múrcia e as Ilhas Canárias.

O Global Land Outlook da UNCCD (2024) denuncia que a ação humana já transformou mais de 70% da superfície terrestre, com degradação e desertificação afetando cerca de um quarto dessas áreas transformadas. No plano doméstico, a agência italiana ISPRA indicou em 2022 uma redução de 19% na disponibilidade de água no último trintenário em comparação com o período anterior — sinal de alerta para a gestão dos recursos hídricos. O WWF reforça que é indispensável rever a alocação da água entre os setores civil, agrícola e industrial e implementar políticas de economia, prevenção e manutenção das infraestruturas.

Na agenda da Cop17, destaca-se o reconhecimento de que a restauração das terras é essencial para reduzir a instabilidade econômica, prevenir fluxos migratórios forçados e reforçar a segurança humana e nacional nas regiões mais vulneráveis. Trata-se de uma jogada estratégica sobre o tabuleiro climático: restaurar solos equivale a recompor alicerces de resiliência que sustentam fronteiras invisíveis de prosperidade e ordem social.

Como analista, vejo este encontro em Ulan Bator como um momento de cartografia política — um redesenho silencioso das linhas de influência onde decisões sobre uso do solo, financiamentos e tecnologia definirão cenários geopolíticos nas próximas décadas. A restauração não é apenas técnica; é política de longo prazo, exigindo governança forte, coordenação internacional e suporte financeiro sustentado para que as iniciativas resistam à pressão do curto prazo.

Até 28 de agosto, os olhos estarão voltados para as negociações e os compromissos que emergirem. Num mundo em que recursos e território são peças do mesmo xadrez, a capacidade de transformar degradação em recuperação será determinante para a estabilidade regional e global.