Dois terços dos húngaros confiam na União Europeia, mas persistem cismas sobre Ucrânia e papel internacional
Pesquisa do ECFR: 68% dos húngaros confiam na UE, mas há forte divisão sobre Ucrânia e entrada na Eurozona.
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Dois terços dos húngaros confiam na União Europeia, mas persistem cismas sobre Ucrânia e papel internacional
Bruxelas – Em um momento em que o tabuleiro europeu volta a ser redesenhado pelas eleições, uma sondagem do think tank European Council on Foreign Relations (ECFR) revela um panorama de contradições na sociedade húngara. Apesar dos anos de tensão entre Viktor Orbán e as instituições comunitárias, cerca de 68% dos eleitores declaram que confiam na União Europeia.
O inquérito, realizado pouco antes da votação marcada para domingo (12 de abril), sondou não apenas a confiança institucional, mas também a visão dos eleitores sobre a Ucrânia, a adesão à Eurozona, o posicionamento internacional de Budapeste e a avaliação de líderes globais. Entre os entrevistados, 43% desejam que o governo que emergir das eleições adote uma postura “muito diferente” em relação a Bruxelas, enquanto 25% aceitariam apenas “pequenas modificações”. Apenas 19% querem a manutenção do atual tom confrontacional.
Na arena monetária, o apoio à substituição do forint pela moeda única é notável: 66% são favoráveis à entrada na Eurozona. No entanto, a divisão partidária é nítida — eleitores da formação TISZA, liderada pelo europeísta Péter Magyar, mostram adesão massiva (95%) à ideia, ao passo que entre os eleitores do Fidesz o apoio cai para 43%.
O ensaio político torna-se mais delicado quando o tema é a guerra na Ucrânia. Segundo o ECFR, a tradicional reticência de Budapeste às iniciativas da UE sobre Kiev permanece patente e pode limitar a capacidade do próximo governo húngaro como parceiro externo. A continuidade do veto imposto pelo primeiro-ministro para o apoio financeiro da UE a Kiev reflete esse clima: 85% dos apoiadores do Fidesz se opõem ao apoio, e mesmo entre os eleitores de TISZA quase metade (48%) é contrária.
Questões de integração também dividem: a adesão da Ucrânia à UE encontra oposição de 83% dos apoiadores de Fidesz e de 40% dos simpatizantes de TISZA. A percepção sobre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, segue a mesma lógica partidária: figura negativa para 84% dos eleitores pró-Orbán e para 42% dos que apoiam Magyar.
Para quem observa a política externa e a estabilidade do espaço europeu, os resultados apontam para alicerces frágeis da diplomacia entre Budapeste e seus parceiros. Há, simultaneamente, uma convergência civilizacional sobre tópicos como a Eurozona e uma persistente divergência estratégica no que toca à Ucrânia — uma fissura que pode tornar o próximo governo um ator ambivalente no xadrez geopolítico do continente.
Do ponto de vista da arquitetura das relações, a Hungria demonstra uma tectônica de poder interna: a sociedade parece disposta a manter vínculos com a UE enquanto preserva reservas sobre decisões sensíveis de política externa. Esta duplicidade sublinha que, mesmo com a confiança institucional majoritária, o movimento decisivo no tabuleiro europeu exigirá negociações prudentes e um ajustamento fino entre interesses nacionais e obrigações comunitárias.
Marco Severini, Espresso Italia — análise sênior em geopolítica e estabilidade das relações de poder.