Fitto admite limites da UE na crise habitacional: “Trabalhamos, mas não fazemos milagres”

Fitto admite limites da UE na crise habitacional: 3,3 bilhões realocados via política de coesão, mas competências permanecem com Estados-membros.

Fitto admite limites da UE na crise habitacional: “Trabalhamos, mas não fazemos milagres”

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Fitto admite limites da UE na crise habitacional: “Trabalhamos, mas não fazemos milagres”

Bruxelas — Em debate com a comissão especial do Parlamento Europeu sobre a crise habitacional, o vice-presidente executivo da Comissão Europeia, Raffaele Fitto, afirmou com realismo diplomático que “estamos a trabalhar, mas não podemos fazer milagres”. A declaração pretende explicitar os contornos e os limites da ação comunitária num problema que, sublinha o comissário italiano, ultrapassa em muito o simbólico.

Fitto reconheceu que a habitação acessível “se tornou numa emergência em toda a Europa”, mas advertiu que a resolução desse nó górdio exige um entendimento claro de competências: a política habitacional é, por excelência, uma atribuição dos Estados‑membros. Nesta matriz institucional, a União dispõe de um mandato limitado e deve atuar como um árbitro estratégico, realocando recursos onde for possível e sinalizando prioridades.

No âmbito da revisão de médio prazo da política de coesão, continuou Fitto, foram introduzidas cinco novas prioridades financiáveis pelos fundos estruturais e uma delas é justamente a política habitativa. Graças a esse redirecionamento, “3,3 bilhões de euros foram reorientados para projetos de habitação”, destacou. “3,3 bilhões de euros em poucos meses é um resultado importante”, disse, sem, no entanto, transformar o gesto em promessa de solução imediata: “em poucos meses não podemos pensar em resolver todos os problemas, mas é essencial começar, traçar uma visão e avançar dentro das possibilidades”.

O comissário recordou que estas ações ocorrem dentro do quadro orçamental vigente — o MFF 2021-2027 — e com fundos já empenhados e sujeitos a prazos. Este fato, argumentou, explica os limites operacionais da instituição: a União pode dar um impulso, mas não substitui as competências nacionais nem dispõe de cifras infinitas para reverter políticas habitacionais fragmentadas num curto espaço temporal.

Do ponto de vista da governança da coesão, no entanto, a mensagem de Fitto é clara e de longo prazo: a temática da habitação foi integrada no processo de modernização da política de coesão e “este tema é e permanecerá central”, afirmou. Governos centrais e autoridades locais podem esperar que a Comissão mantenha o foco por via da coesão; o restante, frisou, terá de ser implementado pelos Estados.

Num cenário onde a tectônica de poder entre níveis de governação se altera lentamente, a intervenção comunitária funciona como uma jogada de xadrez calculada: deslocar recursos, criar precedentes e forjar instrumentos que permitam aos jogadores locais e nacionais moverem-se com mais margem. A estratégia não promete milagres, mas pretende construir alicerces mais sólidos para políticas habitacionais sustentáveis.

Marco Severini, Espresso Italia — análise desde Bruxelas.